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Crítica | Sacrifício (2025) - Ainda é possível ouvir a Terra?

há 20 horas
4 min de leitura

A preservação como espetáculo


Há uma conveniência evidente em defender a preservação do mundo quando isso não exige modificar a própria maneira de habitá-lo. Em Sacrifício, de Romain Gavras, essa contradição situa-se em uma festa beneficente na qual celebridades e bilionários transformam a preocupação com a natureza em mais uma oportunidade de autopromoção. A responsabilidade ambiental circula entre discursos, apresentações e demonstrações de riqueza, perfeitamente acomodada à lógica que supostamente deveria combater. Salvar o planeta também pode ser um excelente negócio.

Nesse primeiro movimento, o filme parece estabelecer um terreno conhecido. O luxo oferece a medida da hipocrisia, enquanto o constrangimento dos convidados alimenta uma sátira voltada à distância entre compromisso público e interesse privado. Ben Bracken, interpretado por Vincent Cassel, representa essa capacidade de apresentar a continuidade da exploração como uma descoberta salvadora: diante dos danos provocados à superfície terrestre, sua resposta consiste em avançar sobre o fundo dos oceanos. A promessa de transformação preserva intacto o princípio que tornou a transformação necessária.

Entre os convidados está Mike Tyler, um astro em declínio que procura recuperar a própria imagem. A presença de Chris Evans acrescenta uma camada particularmente produtiva ao personagem. Seu histórico como herói cinematográfico acompanha um homem cuja relação com o heroísmo depende do reconhecimento dos outros. Mike deseja realizar alguma coisa significativa, mas tem dificuldade de conceber um significado que não passe pela sua condição de protagonista. Evans encontra graça nessa fragilidade, compondo alguém para quem uma crise pode se tornar, quase imediatamente, uma possibilidade de retorno aos holofotes.

Sacrifício (2025) - Quatro pessoas posam para selfie sob foco de luz; mulher com faixa vermelha ergue uma faca, clima dramático e tenso.

Entre a ciência e a profecia


A invasão da festa por um grupo liderado por Joan, vivida por Anya Taylor-Joy, rompe esse equilíbrio satírico. Convictos de que uma oferenda humana a um vulcão poderá impedir uma catástrofe, os invasores introduzem uma relação com a natureza que escapa ao vocabulário dos anfitriões. A Terra deixa de ser apenas um patrimônio ameaçado, um conjunto de recursos ou uma causa conveniente. Torna-se uma presença dotada de exigências, diante da qual o ser humano deve reconhecer sua dependência.

É nessa passagem que Sacrifício assume seu risco mais interessante. A narrativa abandona progressivamente a segurança de uma crítica social reconhecível e se aproxima de um universo em que profecia, matéria e crença disputam a explicação dos acontecimentos. O segundo ato pode produzir uma impressão inicial de desorientação: a jornada desloca o centro do filme, altera o ritmo e enfraquece a concentração cômica da festa. Há momentos em que essa transição efetivamente pesa. Entretanto, à medida que a caminhada avança, o deslocamento revela sua função. Gavras começa a interrogar os próprios critérios pelos quais o espectador separa uma convicção delirante de um conhecimento possível.

Chamar de ecológica a relação proposta pelo grupo talvez seja insuficiente. Ecologia designa uma ciência, enquanto Joan e seus seguidores reivindicam um vínculo anterior à explicação sistemática: uma experiência sensível, ritual e, nesse sentido, pagã da relação entre o ser humano e o espaço. A paisagem participa de sua existência como uma força à qual pertencem. O vulcão concentra essa percepção, reunindo ameaça e possibilidade de renovação numa mesma manifestação material.

Essa posição contém um paradoxo que sustenta o filme. Para salvar a natureza, o grupo recorre a uma prática que parece contrariar tudo o que o conhecimento de seus processos permitiria admitir. A violência ritual é apresentada como resposta a uma violência histórica e econômica, mas sua eficácia depende de aceitar uma linguagem que a razão científica classificaria como superstição. Gradualmente, porém, a narrativa aproxima o que parecia inconciliável: explicações de aparência científica passam a tocar o terreno da profecia. A fronteira perde a estabilidade, e o espectador precisa reconsiderar a confiança com que havia distribuído lucidez e loucura.

Sacrifício (2025) Homem de terno branco e gravata borboleta preta, com barba, posa sério diante de fotógrafos em evento luxuoso.

O heroísmo como sacrifício


A força dessa operação está em expor a dificuldade de uma civilização que acumulou meios de compreender o mundo sem demonstrar igual capacidade de preservar as condições da própria existência. Seria impreciso reduzir a ciência aos interesses de quem a instrumentaliza. O alvo mais fértil de Sacrifício é a pretensão de que conhecimento técnico, poder econômico e domínio da matéria garantam, por si mesmos, uma relação responsável com a Terra. Bracken dispõe dos recursos para agir e continua reproduzindo a exploração; Joan acredita ouvir uma exigência do mundo e responde a ela com uma certeza aterradora. Entre ambos, o filme mantém aberta a distância entre possuir uma explicação e saber como viver.

Anya Taylor-Joy dá consistência a essa tensão ao sustentar uma personagem cuja convicção fascina e ameaça. A firmeza de Joan encontra em Mike uma disponibilidade quase inversa: ele procura uma crença capaz de preencher o vazio que a fama já não consegue disfarçar. A aproximação dos dois permite que o sacrifício adquira uma ambiguidade particular. Oferecer a própria vida poderia representar uma ruptura com o narcisismo, mas também sua realização definitiva: converter a morte no maior papel de uma carreira.


Sacrifício (2025) Homem de terno branco e mulher com faixa vermelha se encaram e se tocam no peito, em cenário industrial, clima tenso.

Os limites do espetáculo


Gavras tampouco se coloca fora das contradições que encena. Seu filme mobiliza estrelas, música pop e imagens de grande impacto para questionar um mundo que transforma tudo em espetáculo. Essa proximidade por vezes limita a contundência da sátira, mas também lhe dá uma dimensão incômoda. A possibilidade de uma experiência transformadora precisa atravessar um universo no qual até a destruição pode ser consumida como imagem.

Ao conduzir sua narrativa para o ápice, Sacrifício torna mais aguda a disputa que começou sob a aparência de uma comédia sobre ricos hipócritas. O que está em jogo passa a ser a possibilidade de reconhecer na natureza alguma coisa que exceda sua utilidade e nossa capacidade de administrá-la. Sua irregularidade permanece visível, mas participa de uma aposta que encontra força justamente quando deixa de oferecer ao espectador uma posição confortável de superioridade.

A pergunta que o filme deixa ressoando envolve a própria capacidade humana de escuta. Depois de transformar a Terra em recurso, mercadoria e objeto de intervenção, ainda conseguimos perceber uma presença à qual pertencemos? Ou o materialismo de nossa relação com o mundo já nos ensurdeceu a ponto de só reconhecermos o coração da Terra quando ele ameaça explodir? 


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