Crítica | Anticristo (2009)
- 6 de mai. de 2025
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O Luto na Mitologia Profana de Lars von Trier
Primeiro filme da inebriante Trilogia da Depressão de Lars von Trier, Anticristo - que ganharia Melancolia e Ninfomaníaca como sequências contemplativas - explora as fases do luto e a relação do patriarcado com a misoginia em um filme repleto de alegorias religiosas e subversão dos valores e símbolos que conferem sacralidade á Mitologia Cristã.

Um filme intelectualmente estimulante, porém, apontado por detratores como cinicamente niilista, o que foge à própria dinâmica empregada, já que o mesmo confere deidade à própria vida e o punitivismo está atrelado aqui, á uma divina sentença, aplicada pelo próprio sujeito da ação. O niilismo clássico passa a ser objetado, para encararmos uma hecatombe cerebrina que leva ao amago da dor e as sórdidas consequências da culpa e do medo.
Em uma mescla de horror psicodélico e drama existencial - por vezes flertando com o inexistencialismo de fato - Trier nos guia pela sombria floresta do Éden em uma subversão da jornada original da queda do homem - aqui, de fora, para dentro do jardim - e também, numa inversão dos círculos da Divina Comédia, que levam dos vales e prisões do Inferno, até o paraíso. Aqui, a reação é a queda, não a ascensão, como na obra de Dante Alighieri. E toda a queda é explicitada numa jornada de pavor erótico e catarse violenta, que entra para o cânone da perversão do cineasta mais genialmente controverso da Europa.

Aqui a Jornada inicia-se no paraíso, dramaticamente pintado através da fotografia monocromática, subvertendo a idealização da vida e da felicidade através das cores, além do uso preciso da câmera lenta - como recurso, não fetiche - e de close-ups e planos detalhe intensos - incluindo um particularmente polêmico, que mostra uma penetração, sem qualquer pudor. Nesse ato, intitulado como Prólogo, somos apresentados ao Adão e Eva do Gênesis de Lars: Willem Dafoe, um psicanalista prepotente e Charlotte Gainsbourg, uma pesquisadora e escritora prolífica, porém desorientada - ele e ela simplesmente - sendo o arquétipo que representa o desejo carnal no imaginário religioso como o Pecado Original, a razão da queda. Pecado esse, que através da morte do filho do casal, os bane do paraíso e os lança em um Éden de sombras onde o luto lhes apresentará três de suas faces mais sórdidas: a dor, a tristeza e o desespero, os três mendigos apresentados durante a trama.
Após o prólogo, o banimento do paraíso tem como primeira parada o funeral da criança, onde o Homem externaliza a dor e a mulher a contém, tudo isso num plano médio que mantém Dafoe em destaque, à direita, ao lado do caixão durante o cortejo e Charlotte, à esquerda no fundo, contendo seus sentimentos até enfim desabar. Tudo isso pintado em cores - frias e turvas é verdade - com o artífice da chuva que aqui, não lava a alma, mas inunda os sentidos de medo e confusão.
A jornada de "cura" para a dor, que consome Ela, é proposta por Ele, porém de maneira nada usual. Seu propósito é inebriá-la com sua própria dor, para com a hiper exposição, curá-la de seu trauma. Uma aposta arrogante de alguém que superou seu luto e vê na esposa, uma paciente, um caso a desvendar.
Esse tratamento de choque os leva ao Éden, o paraíso ancestral onde Ela manteve-se reclusa para trabalhar em sua tese - tese essa que dialoga diretamente com a misoginia e o patriarcado, outro tema relevante apontado no filme - paraíso que agora, cercado de sombras, tem os antigos signos de nostalgia e acalento, transformados em punhais perfurantes que dilaceram a alma e fazem jorrar sangue e dor. Um paraíso invertido que remete à obra de Andrei Tarkovsky. Da atmosfera onírica que Remete a Stalker ao passivo agressivo da natureza, que sai do ritmo contemplativo para a violência explícita de um enquadramento para o outro - algo semelhante ao que o Soviético proporcionou em O Sacrifício. Aqui, Tarkovsky é mais que um mentor ou referencial, é um Mestro do Caos. Um regente que vê sua estética ecoar nos cenários - como a cabana, isolada no meio do nada, que remete à casa de Alexander em O Sacrifício. Ele é forma, ele é conteúdo.

Caos esse que reina, como nas palavras de um dos três mendigos - no caso a Raposa - que são: A Raposa, ardilosa e caótica, ela é a encarnação da dor. A cena em que ela devora a si mesma, mostra o ciclo infinito de dor, trazido pelo luto, uma roda cármica sem fim. O Cervo, que carrega seu feto natimorto, representando a tristeza imposta pelo luto. Um fardo impossível de abandonar ou seguir em frente. E por fim, o Corvo, que é a personificação do desespero. Enterrado vivo, ele se recusa a morrer, apesar de golpeado na cabeça inúmeras vezes, é a consciência da finitude somada ao pavor da morte. Ele é a sentença final e o estágio mais avançado do luto e da dor.
Luto que escancara as relações entre marido e mulher e coloca a mulher no papel simbólico de Anticristo. Desde a tese levantada por Ela, onde as mulheres, condenadas por bruxaria durante a "Santa" Inquisição, eram na verdade culpadas da acusação, passando por uma análise propositadamente deturpada do gênero, que coloca a mulher como uma extensão do diabo na Terra. Uma paródia com a visão imposta através do patriarcado, que fora abraçada por grupos sexistas e misóginos extremistas ao longo dos tempos. A simbologia da roda de concreto, parafusada no personagem de Dafoe, dialoga com essa lógica de fardo invertido. Assim como a visceral cena do esmagamento da genital masculina, seguida pelo plano detalhe da masturbação de sangue, uma dramática reversão na lógica patriarcal, onde a mulher não detém poder sobre seu corpo.
Trier também notabilizou-se como um Mestre no entendimento da montagem e no papel do som á aplicação dos conceitos cinematográficos de seus filmes. Aqui, novamente ele o faz com maestria. Seja pela montagem caótica que une cortes abruptos a flash backs que evocam neuroses, até o reforço da estrutura de pesadelo passada através dos planos detalhe nas descrições de explosões catárticas, na justaposição que cria o horror através da dor - como na cena da viagem ao Éden, onde a cerca viva se torna um receptáculo de fantasmas da protagonista - ou no uso da trilha, sussurros, sons da floresta e silencios como artifícios narrativos. Tudo aqui é criterioso, meticuloso e estranhamente belo.
Em uma de suas obras mais polêmicas, Lars cria um filme essencial, não só para entender sua obra, mas também para propor um diálogo aberto, como uma ponte entre o cinema reflexivo/subversivo do passado e o do futuro.
Crítica | Anticristo (2009) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro


