Crítica | Manas (2024)
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o retrato desbotado de um Brasil invisível
Um retrato fiel e embaraçoso de um Brasil que boa parte dos brasileiros prefere esconder embaixo do tapete da retórica e da hipocrisia. Filmado na Ilha de Marajó, que esteve no centro do debate durante as eleições de 2022, sequestrado pela Extrema Direita, através da então Ministra Damares Alves, que trouxe uma Conspiração mirabolante de redes de prostituição infantil internacional, que escondem na prática a perversa realidade dos crimes praticados no seio da família e endossados pela igreja, instituição a qual ela faz parte.

Manas segue a jornada de Marcielle, nome que é a junção de Marcílio e Danielle, seus pais e serve também como carma da personagem vivida por Jamilli Correa, já que a dor que a acompanha é fruto da inércia da mãe e da crueldade travestida de virtude do pai.
Marianna Brennand, diretora do filme, opta por trabalhar na maior parte do tempo, com a câmera próxima à personagem, alternando entre close-ups e planos médios, além de movimentos irregulares, o filme aproxima o espectador dos sentimentos expostos em cena, enquanto bate com uma marreta encima de questões sociais que pairam sobre a ilha e o país como um todo. O propósito é o confronto, não estamos aqui como passivos que assistem, fazemos parte da história e somos catapultados a nossa impotência ante o horror sistemático e duradouro.
Aqui, o trauma não é abrandado, ele é mostrado como ferida aberta da sociedade, que muitas vezes preferimos ignorar. Do momento do primeiro contato abusivo, que segue toda uma trajetória simbólica: da caça da paca, que o pai leva a filha, sendo o nome do animal, usado para descrever as partes íntimas, ao tiro, que atinge a alma de Tielle e o banho no rio, com as águas turvas e barrentas de alguém que se sente suja por uma atrocidade que não foi ela que cometeu, tudo respira caos, em um trabalho que valoriza a simbologia - em detrimento do explícito, protegendo também o corpo das atrizes - talvez uma das mais marcantes seja a ligada ao Boto Cor-de-Rosa, personagem importante do folclore do norte, mas que esconde em suas origens, histórias de abuso cometidos por familiares e forasteiros - principalmente no cilco da borracha - uma fábula que oculta o silêncio, pois, uma gravidez inexplicável, torna-se obra do boto. Assim, quando a menina fala sobre seu pai pela primeira vez, antes mesmo de denunciar a agressão, vemos o boto desenhado na parede, assim como no desenho que expõe seu trauma, lá está a figura inocente do boto, expiando os crimes do verdadeiro pecador. Um signo silencioso de controle e obstrução da verdade.
O trabalho com a câmera, entrega desde os primeiros momentos, três papéis cruciais para a manutenção do horror familiar: o pai, que é o Predador - buscando a presa quando está distante, criando situações de isolamento, agindo com violência para defender seu território -, a filha, que é a presa - inocente e despreocupada inicialmente, e após o ato, acoada e pressionada pela própria estrutura familiar - e a mãe, a cúmplice involuntária - que reflete seu passado de abuso na filha e entende que há questões que "são assim mesmo, é melhor não mecher". Ela é o prenúncio da violação, afinal, sua filha mais velha que fugira dessa realidade, já havia passado por isso. Ela observa de longe cada suposto gesto de afeto e espera o inevitável com uma complacência assustadoramente cruel. Ela é vítima do passado e isso a moldou em agressora no futuro, mesmo que a dor não parta de suas mãos.
A discussão sobre o papel abjeto do fundamentalismo protestante ante essa realidade é um dos pontos altos do debate. Vemos uma falha governamental e também das organizações de esquerda, que não são capazes de se inserir onde a Igreja se insere. E a partir dali, o neopentencostalismo acaba sendo a máscara de ovelha que o Lobo necessita para devorar o rebanho. Entre os cultos fervorosos e a sentença de que Marcílio é um "homem de Deus", vemos no discurso em frente ao púlpito, as palavras que condenam a vítima e redimem o agressor: "a família é um projeto de Deus. Mesmo se sua família errar com você, perdoe, para que essa unidade permaneça forte." Nesse caso, é óbvio que expor o abusador, seria ceder ao "plano do diabo", sem levar em conta que o diabo é quem está discursando ao microfone e falando em "línguas estranhas", não mais estranhas que as palavras que são ditas em alto e bom som.
O longa segue a sina da menina que fora forçada de maneira abrupta a se tornar mulher e apresenta outro aspecto vil e perverso da realidade do nosso país: a prostituição infantil. Desenvolvendo uma noção de sexualidade deturpada, é o caminho natural traçado pela protagonista, que vê o mal disfarçado de bondade com apelido no diminutivo, escondendo intenções vorazes, tal como o pai que ela conhecera como monstro. A violação aqui, a torna em produto, o trauma a impede de olhar além daquilo que se verbaliza, afinal, se não há violência física e intimidação, não há violência de fato, o mesmo é válido para identificar o que de fato representa o perigo.
O papel das instituições na manutenção dessa teia de eventos críticos é explorado através da disfuncionalidade proposital do sistema. Há indivíduos que se importam e querem fazer algo a respeito, mas até que ponto o sistema os permite avançar?
Ao fim, temos a solução do desespero que põe fim ao ciclo de maldade, mas como sentença ao longo de todo o filme, vemos que Tielle está longe de ser uma exceção, ela é a regra criada pelo isolamento, a miséria e o descaso de quem deveria protegê-la.
Crítica | Manas (2024) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro


