Crítica | Dia D (2026) - quando Spielberg olha para o desconhecido, mas encontra velhas respostas
- 23 de jun.
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O rosto de Spielberg
Há algo curioso em Dia D: poucas pessoas filmam o espanto como Steven Spielberg. O diretor construiu boa parte de sua carreira a partir do momento em que seus personagens encaram algo impossível — dinossauros, alienígenas, máquinas de guerra, acontecimentos que transformam o cotidiano em uma experiência de descoberta. É aquilo que muitos chamam de “o rosto de Spielberg”: o instante em que alguém olha para o extraordinário e o cinema tenta capturar essa reação.

Seu novo filme retorna justamente ao território que ajudou a definir sua trajetória: a ficção científica. A proposta parece ambiciosa. Dia D promete discutir revelações alienígenas, segredos escondidos durante décadas, o impacto de uma descoberta capaz de alterar a visão da humanidade sobre si mesma. O filme sugere que estamos diante de algo que poderia abalar crenças religiosas, políticas e sociais.
Profundidade prometida, reflexão limitada
O problema é que Spielberg parece prometer uma profundidade que o próprio filme não consegue entregar. A obra se apresenta como uma reflexão sobre a humanidade diante do desconhecido, mas muitas vezes funciona apenas como um blockbuster tradicional com uma camada filosófica aplicada por cima. Existe a aparência de uma grande discussão sobre fé, contato e transformação, mas quando chega o momento de desenvolver essas ideias, o roteiro se mostra muito mais interessado em conduzir a aventura do que em enfrentar suas próprias perguntas.
A grande ironia é que Spielberg sempre foi um cineasta capaz de transformar premissas simples em experiências complexas. E.T. não era apenas sobre um alienígena; era sobre solidão, infância e conexão. Contatos Imediatos do Terceiro Grau não era apenas sobre visitantes de outro planeta; era sobre fascínio e transcendência. Em Dia D, porém, a descoberta que deveria reorganizar nossa compreensão do mundo acaba reduzida a uma narrativa de conspiração bastante convencional.

Um filme desconectado do presente
O filme também parece desconectado do presente tecnológico em que está inserido. Em uma era marcada por redes sociais, inteligência artificial, vazamentos instantâneos e excesso de imagens, uma história sobre uma grande revelação global exigiria pensar mais profundamente sobre como a humanidade receberia essa informação. Spielberg parece ignorar esse cenário e constrói um conflito que pertence mais a décadas passadas do que ao mundo atual.
Essa escolha cria algumas das maiores fragilidades narrativas do longa. A estrutura depende de mecanismos de comunicação e investigação que soam envelhecidos, tornando difícil acreditar que um acontecimento dessa escala poderia permanecer escondido da mesma maneira.

O espetáculo sem a mesma força
Outro problema é a própria ação. Spielberg continua sendo um mestre da encenação, e há momentos em que sua habilidade técnica aparece com força. A composição dos planos, o uso da luz, o controle da tensão e o trabalho visual continuam acima da média.
Porém, algumas sequências de perseguição parecem existir mais por obrigação de um grande espetáculo do que por necessidade dramática. São momentos de ação genérica que destoam da tentativa de construir um thriller mais contemplativo.

Um mestre diante dos próprios limites
O resultado é um filme dividido entre duas propostas: de um lado, um Spielberg interessado em discutir o medo, a fé e o encontro com o outro; de outro, um Spielberg entregando as engrenagens tradicionais de um grande entretenimento de estúdio.
Há também uma sensação estranha de inversão histórica. Spielberg foi uma das grandes forças que inspiraram gerações de cineastas que passaram a brincar com mistério, revelação e espiritualidade no cinema. Mas em Dia D, ele parece se aproximar de caminhos que outros diretores desenvolveram melhor — especialmente aqueles que transformam fenômenos extraordinários em metáforas sobre crença e percepção. Há ecos de um cinema mais próximo de M. Night Shyamalan, por exemplo, mas sem a mesma assinatura autoral que faz esses temas parecerem inevitáveis dentro da obra dele.
O impossível já não surpreende tanto
Isso não significa que Dia D seja um fracasso. É um filme de um grande diretor que ainda domina sua ferramenta principal: criar imagens capazes de prender o espectador. Spielberg continua sabendo filmar o momento em que alguém vê algo impossível.
A questão é que, desta vez, o impossível parece menos impressionante porque as respostas do filme são muito mais conhecidas do que suas perguntas.
Dia D quer falar sobre uma descoberta que mudaria a humanidade. No fim, talvez a maior descoberta seja outra: até os maiores criadores precisam encontrar novas formas de olhar para aquilo que já viram antes.
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