Crítica | Mestres do Universo (2026) - fidelidade e a autossabotagem
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Atualizado: há 1 dia
O retorno de Eternia às telas
Mestres do Universo é o primeiro filme da franquia centrada em He-Man desde Masters of the Universe (1987), adaptação estrelada por Dolph Lundgren. Diferentemente daquele longa, que transferia grande parte da ação para a Terra como consequência das limitações orçamentárias, a nova produção investe pesadamente na construção visual de Eternia, o mundo fantástico que serve de cenário às aventuras do herói. Finalmente, He-Man recebe uma adaptação compatível com a dimensão imaginária de seu universo. A questão é se esse esforço foi suficiente para transformar fidelidade estética em um grande filme.

O desafio de atualizar um ícone dos anos 1980
Com o elevado investimento veio também a missão de dialogar com uma nova geração de espectadores. Não é segredo que He-Man é um produto profundamente ligado ao seu tempo. Sua estética sempre habitou um território camp e assumidamente artificial, marcado pelo excesso visual, pelo maniqueísmo narrativo e por valores característicos da cultura pop dos anos 1980. Nesse contexto, apenas atualizar os efeitos especiais talvez não fosse suficiente para tornar o personagem atraente ao público contemporâneo, especialmente quando existe a preocupação simultânea de preservar aquilo que tornou a franquia um fenômeno.

A força da fidelidade ao material original
O resultado é um filme que respeita a imensa maioria dos elementos clássicos da série. Sua imagética evita recorrer excessivamente a tendências estéticas momentâneas e encontra força justamente naquilo que poderia parecer antiquado. Esse distanciamento do realismo que domina boa parte do entretenimento infantojuvenil contemporâneo revela-se um dos maiores acertos da adaptação. O respeito ao material original é perceptível nos jargões, nos elementos centrais da mitologia, nos figurinos detalhados e em toda a exuberância visual que sempre caracterizou o universo de Eternia. Há algo de deliberadamente cafona em muitas dessas escolhas, e o filme acerta ao compreender que essa cafonice faz parte da identidade da obra.

O medo da seriedade
Os elogios, entretanto, tendem a se concentrar na qualidade técnica, no apelo nostálgico, no respeito visual à franquia e nas cenas de ação. Quando o filme procura dialogar com a nova geração, surgem os seus problemas mais evidentes. E o problema não está em buscar novos espectadores, mas na aparente convicção de que eles seriam incapazes de apreciar momentos de silêncio, gravidade dramática ou mesmo uma narrativa que leve a si própria minimamente a sério.

Um roteiro sem unidade
Não considero adequado reduzir a arte à transmissão de mensagens. Ainda assim, quando uma obra escolhe organizar seu enredo em torno de uma ideia central, espera-se ao menos alguma coerência entre aquilo que é construído ao longo da narrativa e aquilo que é apresentado em sua conclusão. O filme trabalha repetidamente determinados valores e conflitos para, nos momentos finais, enfraquecer ou contradizer parte significativa do que vinha desenvolvendo. O resultado é uma sensação constante de dispersão dramática. Talvez não seja coincidência que o roteiro conte com seis profissionais creditados, algo que ajuda a explicar a falta de unidade que atravessa a narrativa.
Entre a reverência e a autossátira
Outro problema recorrente está na quantidade de piadas e tentativas de desconstrução do próprio personagem. Satirizar a própria história entra em choque com o respeito demonstrado nos demais aspectos da adaptação. O filme parece exibir suas imagens para um público adulto que guarda carinho e admiração pelo universo de He-Man, mas escolhe narrar essa história através do olhar de alguém que considera esse mesmo universo motivo de piada. A consequência é um conflito permanente entre reverência e ironia.
Uma adaptação que não acredita totalmente em seu herói
Embora apresente muitos acertos e represente uma agradável surpresa em termos de entretenimento, Mestres do Universo falha justamente onde mais precisava ser firme: na coragem de acreditar plenamente no personagem que decidiu adaptar.
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