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O Agente Secreto (2025)

Entre ditadura, memória e cinema

 

Crítica de O Agente Secreto (2025)

O Agente Secreto é o mais recente filme de Kleber Mendonça Filho e insere harmonicamente na sua filmografia, representando novamente a cultura nordestina, com especial ênfase em Recife, cidade que figura como elemento central de sua obra. Desde o seu primeiro longa, O Som ao Redor (2012), o diretor tem abordado questões relacionadas à cultura popular, à história do(s) cinema(s), ao panorama social e aos processos históricos. Através de filmes como Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos Fantasmas (2023), esses temas ganharam projeção tanto nas telas nacionais quanto internacionais, tornando-se referências da cinematografia brasileira em premiações globais.

De certa forma, O Agente Secreto parece sintetizar a trajetória de Mendonça Filho até o momento. Ambientado em Recife, no ano de 1977, o longa narra a história de Armando, um ex-professor universitário que retorna à cidade natal para reencontrar o filho e planejar sua saída do país. A partir dessa premissa, o filme articula elementos centrais do período da Ditadura Militar no Brasil, incluindo a repressão política, a vigilância constante e o esquecimento histórico, enquanto também se debruça sobre o folclore popular e a memória. O grande elo condutor de todas essas questões é o filme norte-americano Tubarão (1975), que atua como um catalisador das diversas propostas do filme.

Ao longo da narrativa, são diversas as alusões a Tubarão, que completa cinquenta anos em 2025. Vale refletir sobre o significado do animal e do título no contexto brasileiro, especialmente no Recife. Primeiramente, é importante destacar que Recife detém o maior número de ataques de tubarões no Brasil, o que acrescenta uma camada simbólica à presença do animal na trama. O tubarão, como predador que se aproxima de sua presa de forma silenciosa e, então, ataca de maneira rápida e inesperada, ressoa com as operações de vigilância e repressão realizadas durante a ditadura, caracterizadas pela violência invisível e pela constante sensação de ameaça. Esse paralelo é ampliado no filme pelo uso recorrente de quadros do presidente Ernesto Geisel, que estão estrategicamente distribuídos pelos cenários, reforçando o clima de vigilância.

Além disso, o enredo inclui a descoberta de um tubarão morto, que, ao ser dissecado, revela uma perna humana. O mistério envolvendo essa perna percorre toda a trama, estabelecendo uma conexão com a lenda local da "perna cabeluda", uma história popular sobre uma perna que andaria sozinha pelas praças e mata pessoas. A lenda ganha um destaque significativo no filme, com uma dramatização de uma reportagem jornalística, o que remete à frequente presença desse tipo de narrativa nos jornais da época e pode indicar uma intensificação da violência urbana. O Tubarão ainda se conecta com a questão da história quando pensamos no antigo cinema como local de memória. Podemos até ver em Retratos Fantasmas, nesse aspecto, uma preparação para O Agente Secreto.

A complexidade da obra é notável, pois Kleber Mendonça Filho consegue integrar uma vasta gama de temas e influências em um único filme. No entanto, apesar da ambição e da inventividade do projeto, é possível argumentar que, em determinados momentos, o longa se alonga em elementos de menor relevância para a trama principal. Essa extensão de alguns temas, quando abordados de forma mais leve, pode gerar uma quebra no tom mais grave e opressivo que permeia o restante do filme. Tal característica poderia ser vista como uma falha narrativa, capaz de prejudicar a recepção do filme em premiações de grande porte, como o Oscar. No entanto, independentemente disso, O Agente Secreto foi reconhecido em Cannes, conquistando prêmios para o diretor Kleber Mendonça Filho e o ator Wagner Moura, evidenciando a relevância da obra no cenário cinematográfico internacional. O fato é que novamente o Brasil está figurando entre os principais festivais do mundo.


Crítica de O Agente Secreto (2025) | por: Douglas Esteves Moutinho

 
 

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