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Crítica | Hamnet: a Vida antes de Hamlet (2025)

Da Dor ao Opus Magnum


Premiado como Melhor Filme de Drama no Globo de Ouro e indicado a oito categorias do Oscar, Hamnet: a Vida antes de Hamlet (2025) debruça-se sobre episódios escassamente documentados da existência de William Shakespeare, privilegiando as tensões e afetos do âmbito familiar em detrimento de uma abordagem biográfica convencional do dramaturgo. Ao abdicar da exaltação dos grandes marcos públicos de sua trajetória, o filme opta por perscrutar as zonas íntimas e silenciosas que moldaram sua sensibilidade criadora.

Crítica | Hamnet: a Vida antes de Hamlet (2025)

A obra cinematográfica adapta o romance homônimo de Maggie O’Farrell, publicado em 2020, e é dirigida por Chloé Zhao realizadora de Nomadland cuja assinatura autoral se manifesta sobretudo na condução intimista e delicada da narrativa. Tal sensibilidade revela-se no modo como a câmera explora cenários e fisionomias por meio de enquadramentos rigorosos, alternando estaticidade e deslocamentos meticulosamente calculados, sempre acompanhados por uma trilha musical que reforça a atmosfera contemplativa e emocional da obra.

Ao afastar-se de uma perspectiva biográfica e cronológica que reduziria a vida do dramaturgo a uma sucessão de feitos notáveis o filme possibilita ao espectador adentrar a alma de Shakespeare, oferecendo um olhar inédito sobre a gênese de Hamlet. Não se trata de observar a peça pelos olhos de seu autor, mas de compreendê-la a partir das dores, ausências e fraturas existenciais que o conduziram à criação de seu opus magnum.

Crítica | Hamnet: a Vida antes de Hamlet (2025)

O luto e a melancolia constituem o fio condutor de todo o drama, o qual, embora prime por uma beleza de matiz bucólica, não se oculta atrás dessa atmosfera como se esta servisse de véu para encobrir um vazio anímico. Ao contrário, a natureza integra-se organicamente ao drama encenado, estabelecendo um diálogo constante com o desenrolar dos acontecimentos. Ela se apresenta simultaneamente como espaço de contemplação de belezas exuberantes e como instância regida por uma lógica própria e por vezes cruel. Imersa no mistério da vida, a experiência da perda e da dor pode, paradoxalmente, engendrar formas de beleza destinadas a perdurar por gerações.

No cerne da obra, somos levados a refletir sobre aquilo que possui maior valor: a vida ou a beleza. Por fim, torna-se evidente que nada existe de forma dissociada e que a catalisação de determinados afetos constitui artifício essencial para a gestação da magnificência artística. Apenas uma conclusão se impõe: vida, morte, sublimidade, arcádia, thauma e catarse são indissolúveis das maiores criações já desenvolvidas pelo homem.


Crítica | Hamnet: a Vida antes de Hamlet (2025) - por Douglas Esteves Moutinho


 
 

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