Crítica | Marty Supreme (2025)
- há 22 horas
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Muito além do esporte
Marty Supreme (2025) é o mais novo trabalho da ainda curta, porém bastante interessante filmografia de Josh Safdie e chega aos cinemas cercado de grande expectativa. Tal expectativa se deve, em grande parte, aos comentários e avaliações da crítica acerca da atuação de seu protagonista, Timothée Chalamet, bem como ao reconhecimento do filme como um todo, evidenciado pelo alto número de indicações ao Oscar e pelas premiações nas quais, ao longo da temporada, saiu vencedor ou ao menos indicado.

Como a grande maioria dos filmes hollywoodianos contemporâneos que merecem destaque, Marty Supreme não se insere em um gênero específico; ao contrário, aposta no hibridismo de gêneros. Nos últimos anos, é possível perceber um acentuado declínio do cinema de gênero, sendo particularmente curioso o papel que a comédia passou a ocupar nesse contexto. É sabido que a comédia tornou-se um gênero problemático, característica atribuída em grande parte às mudanças de valores sociais e às consequências de uma suposta liberdade criativa inerente ao gênero. Diante disso, cineastas passaram a diluir a comédia em pequenas doses distribuídas em filmes de outros gêneros, criando momentos que ficaram conhecidos, de forma vulgar, como “alívios cômicos”.

No terror ou na ficção científica contemporânea presentes majoritariamente na forma de filmes baseados em HQs tal artifício rapidamente se saturou devido à padronização de seu uso. Assim, a comédia ou, no mínimo, seus elementos passou a integrar uma espécie de manual do que deve ser evitado na formulação de um “bom cinema”. É nesse cenário que surgem filmes que retomam a comédia de maneira inventiva, não apenas como recurso de descontração, mas como ferramenta dramática que dialoga internamente com a atmosfera da narrativa. O cômico torna-se desconfortável ou absurdo sob uma conotação camusiana, sustentando nuances datrama e do desenvolvimento narrativo que seriam impossíveis sem esses atributos.
Anora, vencedor da última edição do Oscar, apostou em um hibridismo semelhante ao articular de forma magistral drama e comédia, apresentando-se como um genuíno espelho de seu tempo e dialogando inclusive com elementos baumanianos. De maneira análoga, Marty Supreme substitui os elementos sensuais de Anora por elementos esportivos, reafirmando como um filme que mescla comédia e drama pode se tornar um dos favoritos do ano.
Marty Supreme, que à primeira vista pode parecer um simples filme sobre tênis de mesa, supera rapidamente essa impressão já em seus minutos iniciais, deixando claro que o esporte é apenas um dos elementos que compõem as múltiplas camadas estruturais e narrativas da obra. Formalmente, o filme é extremamente competente, destacando-se a montagem dinâmica nas cenas esportivas e nos momentos mais inusitados, a cenografia minuciosaque recria os anos 1950, a filmagem em 35mm outra semelhança com Anora e, sobretudo, a atuação de Timothée Chalamet, que entrega, possivelmente, a melhor performance de sua carreira e consolida-se como o ator mainstream mais promissor da atualidade.
Crítica | Marty Supreme (2025)




