Crítica | O Príncipe das Sombras (1987)
- 1 de abr.
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Carpenter: o eterno príncipe das sombras
Ao assistir O Príncipe das Sombras - segundo filme da Trilogia do Apocalipse, contando também com O Enigma de outro mundo e À Beira da Loucura - clássico de John Carpenter me fica a honesta pergunta: porque esse modelo de cinema foi abortado? Porque quando o assunto é horror, convencionou-se o reforço pelo jump scare, a previsibilidade narrativa e o apelo do sustinho. Além do sepultamento parcial do uso dos efeitos práticos em razão do CGI.

Para efeito de comparação, nos anos 70, 80 e 90 tivemos uma explosão de clássicos Body Horror, com cineastas engajados no segmento - David Cronenberg, John Carpenter, Wes Craven, George Romero, Tobe Hooper - e uma gama de maquiadores que tornaram-se lendas do horror - pós Jack Pierce, surgiram Tom Savini, Rick Baker, Rob Bottin, esse último responsável pelo filme analisado - criando não só efeitos que saltam os olhos, como dando vida a personagens icônicos: Freddy Krueger, Jason Vorhees, Seth Brundle e tantos outros.
Já quando avançamos para os anos 2000, o reforço é em elementos psicológicos, sustos e numa linha comercialmente atrativa, o que em geral, produz um conteúdo raso e sem apelo artístico - salvas exceções, como o primeiro Invocação do Mal - com o body horror tornando-se um exemplar de nicho, uma sombra de um cinema anterior. Talvez Planeta Terror, do Projeto Grindhouse de Robert Rodríguez e Quentin Tarantino, A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar e A Substância, mais recentemente, de Coralie Fargeat, sejam as exceções que justificam a regra e que buscaram resgatar esse estilo único e imprescindível para a manutenção do gênero enquanto arte.
Arte que encontra seu eco cristalino nesse clássico de 1987, objeto desta análise. O filme, que narra a história de um Padre - apenas chamado dessa forma - interpretado por Donald Pleasence, que descobre com a morte do antigo protetor dos segredos da Ordem dos Guardiões dos Sonhos, uma força ameaçadora capaz de usurpar o nosso planeta. Para conter tal mal, ele solicita ajuda do Físico e Professor Howard Birack, interpretado por Victor Wong, que monta uma verdadeira força tarefa científica para entender e conter o poder aprisionado num receptáculo na antiga igreja.
O arco narrativo que apresenta a ameaça, traz além do estranho fluido verde, uma ameaça mais tangível, que dialoga com um medo real da dita "sociedade civilizada": os moradores de rua. Transeuntes esquisitos e sombrios, temidos pelo público estadunidense geral, foram a piada perfeita de Carpenter, para literalmente zombar dessa fobia. Sincronizados, apáticos e zumbificados, eles são o elemento do mal presságio - presente desde o início da missão do heterogêneo grupo - e tem em Alice Cooper - ele mesmo - a representação final do pavor que espreita nas sombras. Uma adição mais do que condizente a um filme que se digna a apresentar o demônio. Cooper é aqui, o semeador das sombras, o ceifeiro do Apocalipse. E de fato, combina com o nosso Vampiro de Hollywood.
Jamerson Park e Lisa Blount, famosos por outros títulos do segmento, dão vida ao casal protagonista, que juntamente com o Professor e o Padre, estão no centro de toda a ação. Ele, Brian Marsh, um confiante universitário, ela Catherine Danforth, uma reservada, porém genial acadêmica, são pontos de extrema relevância na noite de horror em solo supostamente sagrado.
Supostamente pois entre seus inimigos está a intangibilidade da desinformação, do ceticismo e posteriormente do medo. Três forças que ajudam a alimentar o mal que habita o seio de um local que abriga mais o diabo do que Deus. A desinformação, como elemento manipulador da fé, que omite a verdade por conveniência e receio, alimenta indiretamente o próprio mal que deveria destruir. O ceticismo, acompanhado pela arrogância acadêmica e o falso controle da narrativa, diante do perigo antinatural, os mantém estáticos e impotentes. Ambos se fundem para dar resultado a sua equação: o MEDO.
A deterioração das convenções científicas do grupo, dá-se de maneira épica, através de sangue, desmembramentos, morte e vísceras. Cada morte aqui é importante, cada novo não vivo, sai de um aliado a um soldado do tinhoso e uma ameaça a ser superada. O uso dos enquadramentos e o controle da luz são essenciais para a atmosfera pretendida. Seja em enquadramentos fechados que reforçam a claustrofobia e agem como o presságio da morte, ou pela escuridão que oculta o perigo, cuja luz solitária de uma lanterna não é capaz de subjugar. A meticulosidade é o que faz com que os efeitos práticos - próteses, sangue artificial, maquiagem e mais - sejam aproveitadas em sua totalidade. Tal como o uso de animais como recurso estético do horror - seja no perturbador enquadramento médio do Pombo crucificado, nas formigas e vermes que consomem o local ou nos besouros, que devoram sua vítima em vida - tudo aqui perturba e encanta, como um monumento à profanação. Um vislumbre escatológico da Grande Babilônia assentada sobre a Besta, como citado pela especialista em línguas antigas.
Da mesma maneira temos a utilização da trilha sonora - um clássico de Carpenter - assinada pelo próprio diretor em parceria com Alan Howarth. Música essa responsável por criar uma atmosfera opressiva e de desesperança, reforçando a tensão em cena. Com uma digna adição do próprio Cooper em uma cena de matança protagonizada pelo mesmo, uma justa homenagem ao Mestre performático.
Tão perturbador quanto seu desenvolvimento é sua conclusão, que não deixa espaço para a pieguice do felizes para sempre. Aqui, o mal á espreita pode estar observando de um plano distante, ou quem sabe, se materializar através daquilo que mais se ama.
Crítica | O Príncipe das Sombras (1987) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro


