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Crítica | A Dama da Lotação (1978)

  • 24 de mar.
  • 3 min de leitura

Neville D’Almeida dirige um filme de Sônia Braga


Ambientado na obra de Nelson Rodrigues e trazido às telas por Neville D’Almeida. A Dama da Lotação é um filme que poderia entregar mais, narrativamente falando, ainda mais considerando o material de Nelson – onde a complexidade psicológica da protagonista é substituido pelo simples choque do sexo e as relações extraconjugais nuanceadas são limitadas a cenas esparsas e de peso reduzido dentro da lógica narrativa, com exceção dos personagens próximos ao esposo Carlinhos- além obviamente do histórico complexo e subversivo da cinematografia de Neville, um dos pais do cinema marginal.

Crítica | A Dama da Lotação (1978)

Nesse filme, o que vemos é o retrato que endossa a denúncia levantada por Glauber Rocha no Programa Abertura, com relação aos cineastas oriundos do Cinema Novo, que viraram as costas para o movimento e se entregaram ao simplismo narrativo e pobreza estética da pornochanchada. Um filme carente de técnica e pobre de texto, mas que no entanto, é capaz de entregar uma atuação vívida de Sônia Braga e protocolares e coesas de Jorge Doria e Nuno Leal Maia.

As escolhas cinematográficas também ficam aquém da experiência pretendida, como o uso além do tom da estática – num modelo tipicamente televisivo, usado como estratégia de atração para o público das telenovelas – e planos que não valorizam a cena em si, como o médio no cemitério e a cena do hotel, com o ator Jorge Doria – esta uma potencial adição do roteiro, visto que não se encontra no conto de Rodrigues – que poderia ter uma inversão maior de planos, para explicitar o conflito e o desejo. Embora hajam tomadas que são puro suco do cinema de D’Almeida, como o choque inicial com a cena de estupro, com planos médios de cima e fechados lateralmente, com a irregularidade em sintonia com o horror da cena, ou mesmo o contraste do figurino extravagante da personagem, em um vermelho vivo ou um amarelo ouro, contrastando com o asfalto cinzento a poeira e o tom opaco de uma calçada suburbana. Tal como a representação fúnebre de Carlos ante sua descoberta e o papel de Solange no seu “velório moral”.

O filme funciona bem em sua crítica à classe média carioca: o puritanismo que disfarça a perversão, o choque entre a fachada do casamento tradicional e o ardor do desejo, assim como a falsa moralidade envolta em uma teia de conservadorismo frágil que expõe não só o desejo carnal, como a própria violência e instintos primitivos, que mantém-se em oculto, ornados pela boa aparência e sociabilidade.

O destaque absoluto do filme é Sônia Braga, não há qualquer dúvida quanto a isso. Em uma atuação visceral, que une frigidez e sensualidade numa proporção intangível até o choque com sua verdadeira natureza. De dama imaculada a predadora voraz, nuances que inclusive transformam suas feições de acordo com o ambiente, são um deleite ao olhos. Seu pesadelo de desejo e falta de culpa surrealista, despertada para sua realidade de uma frigida contida, ou de uma ninfomaníaca acorrentada às convenções da sociedade, é um dos momentos mais célebres do longa.

Para uma subversão da subversão, podemos dizer que o filme tem êxito, mas talvez, sob o olhar atento à narrativa o impacto do choque e da denúncia poderiam ser ainda mais perenes.


Crítica | A Dama da Lotação (1978) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro


 
 

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