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Crítica | O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

  • 13 de fev.
  • 2 min de leitura

Autonomia, liberdade criativa e o vazio estético


Adaptado da atemporal obra de Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes transporta para a tela a primeira parte da história de Heathcliff e Cathy sob a ótica da cineasta Emerald Fennell, conhecida por Saltburn e Bela Vingança.

Crítica | O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

Embora a diretora tenha se esquivado quanto ao filme ser ou não uma adaptação, ele deve ser pensado através do diálogo com a obra original que lhe deu origem. É perceptível a ampla liberdade criativa de que Fennell lança mão, mostrando-se indiferente a anacronismos, etnias ou idades das personagens. Historicamente, nada se articula de maneira coerente. No entanto, o filme não foi concebido como representação histórico-literária, mas como criação autônoma que parte de personagens preexistentes deslocados para uma realidade social que se conecta com a proposta da diretora. Dessa forma, torna-se inevitável remetermo-nos ao conceito de morte do autor, formulado por Roland Barthes.

Segundo o crítico francês, a publicação de uma obra faz com que ela deixe de pertencer exclusivamente ao escritor, relativizando um possível sentido originário e permitindo ao leitor construir significados próprios a partir do texto. Tal pensamento, inovador no campo da crítica literária, rompe com a tradição antiquada de tentar desvendar uma intenção única e definitiva do autor. Consequentemente, o fato de O Morro dos Ventos Uivantes distanciar-se abruptamente do romance original pode levar alguns a recriminarem o filme; contudo, os fundamentos teóricos dessa exigência foram superados há mais de meio século, não fazendo sentido pensar unicamente em fidelidade narrativa.

Crítica | O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

A adaptação de Fennell não é questionável pela liberdade criativa, mas pelo vazio e pela covardia, tanto no conteúdo quanto na forma. A cineasta surpreendeu com Bela Vingança, em 2020, filme que lhe rendeu o Oscar de Melhor Roteiro Original. Embora a proposta de subversão feminista do subgênero “estupro e vingança” tenha se mostrado instigante, a diretora parece indecisa entre chocar o público, enaltecer a coragem da protagonista ou aprofundar-se em sua complexidade psicológica. Além disso, faltou-lhe ousadia para tratar visualmente de um tema de tamanha gravidade. A indecisão e a covardia reaparecem em Saltburn e tornam-se ainda mais evidentes em O Morro dos Ventos Uivantes, divulgado quase sob uma aura erótica que, no entanto, não se concretiza.

Todavia, sua falha mais grave não reside no anacronismo dos cenários e objetos, na incoerência social ou mesmo na covardia, mas no vazio que se evidencia sobretudo em sua forma. O filme entrega reiteradamente imagens de inegável apuro plástico, como quadros que evocam pinturas a óleo ou fotografias meticulosamente compostas. Entretanto, no cinema, quando a beleza fotográfica e cenográfica não dialoga harmonicamente com os demais elementos narrativos, o resultado é uma obra esvaziada, que se sustenta apenas na superfície estética. O longa converte-se, assim, em uma sequência expositiva de belos cenários, belos atores, figurinos impecáveis e enquadramentos calculados. Toda essa beleza, lançada quase violentamente ao olhar do espectador, termina por ocultar as múltiplas ausências – sensoriais, formais e narrativas – que atravessam a obra.


Crítica | O Morro dos Ventos Uivantes (2026) - por Douglas Esteves Moutinho

 
 

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