Crítica | A Noiva (2026)
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Subversão superficial
A Noiva, dirigido por Maggie Gyllenhaal, parte de uma premissa promissora: revisitar o mito criado por Mary Shelley e ambientá-lo na Chicago dos anos 1930. Na trama, o monstro de Frankenstein – que se autonomeia também Frankenstein – pede à Dra. Euphronius que crie uma companheira. Ao reanimar uma jovem recentemente morta, surge a Noiva, encaminhando a narrativa para um romance violento, caótico e potencialmente subversivo. Na prática, porém, o filme raramente sustenta essa promessa.

O longa parece empenhado em apresentar uma proposta de subversão – especialmente em chave feminista – mas esbarra na coragem necessária para isso. Há uma sensação constante de que o filme acredita que bastam alguns palavrões, explosões de raiva e uma protagonista temperamental para construir uma figura feminina poderosa. O resultado é superficial. A provocação permanece na superfície e não se converte em construção dramática consistente.
Esse problema se agrava na forma como a narrativa se desenvolve. Em vez de confiar na força das imagens, o filme recorre repetidamente à exposição verbal para explicar o que deveria ser sugerido pela mise-en-scène. A direção parece desconfiar da própria capacidade de narrar visualmente e compensa essa insegurança com diálogos excessivamente explicativos. Assim, aquilo que poderia emergir do choque entre situações, enquadramentos e atmosferas acaba sendo simplesmente dito. O cinema cede espaço à ilustração verbal.

O roteiro também demonstra fragilidade estrutural. As conexões dramáticas entre os elementos da história são frouxas e muitas vezes arbitrárias. Um dos dispositivos mais curiosos – e problemáticos – é a presença da própria Mary Shelley dentro da mente da criatura reanimada. A escritora aparece como uma espécie de entidade que habita a morta-viva ao mesmo tempo que habita o submundo, conduzindo reflexões e diálogos que deveriam produzir densidade temática, mas na prática reforça a tendência do filme à explicação literal.
Há também uma indecisão tonal constante. O filme oscila entre terror, drama e comédia sem consolidar nenhum desses registros. Em certos momentos, parece tentar assumir uma postura de sátira do gênero; em outros, busca uma seriedade sombria que nunca se estabelece plenamente. A confusão aumenta quando a narrativa passa a flertar com o musical. Algumas dessas sequências surgem de maneira abrupta e deslocada, produzindo um efeito de constrangimento que rompe o pouco de gravidade que o filme ainda mantinha.
A proposta de reinvenção do mito de Frankenstein poderia abrir espaço para uma reflexão estética e narrativa interessante. Em vez disso, o longa prefere explicar suas intenções, multiplicar discursos e alternar registros sem convicção. Falta decisão formal e falta coragem para levar suas próprias ideias até o limite. O resultado é um projeto que se pretende subversivo, mas que permanece preso a uma superfície ruidosa e pouco consistente.
Crítica | A Noiva (2026) - por Douglas Esteves Moutinho


