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Crítica | Wicked (2024)

  • 30 de nov. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 20 de mar.

A subversão das virtudes


Quem acompanha o meu trabalho enquanto crítico sabe que minha abordagem é, primeiramente, de cunho formalista, rejeitando o enfoque excessivamente conteudista que se torna, frequentemente, imperativo nos discursos críticos contemporâneos. No entanto, ao me deparar com Wicked, sinto-me compelido a realizar algumas reflexões sobre o enredo desta obra, que demandam uma análise mais profunda das suas implicações narrativas.

Crítica | Wicked (2024)

Wicked, embora seja um filme baseado em um musical homônimo (que, por sua vez, se fundamenta no livro de 1995 também intitulado Wicked), estabelece um diálogo direto com a versão cinematográfica de 1939, que é baseada na obra literária de L. Frank Baum, O Maravilhoso Mágico de Oz (1900). A película reinterpreta a história da Bruxa Má do Oeste, fornecendo uma nova perspectiva sobre os eventos que a transformaram na antagonista central do universo de O Mágico de Oz.

Toda manifestação cultural é, indubitavelmente, um reflexo de seu tempo, e Wicked se insere de maneira evidente no relativismo moral e cultural que caracteriza a contemporaneidade. Se revisitarmos autores consagrados como C. G. Jung, Mircea Eliade, Pierre Grimal, Joseph Campbell, J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis e G. K. Chesterton, perceberemos que a transposição e a adaptação dos símbolos e arquétipos das grandes narrativas mitológicas e literárias podem enfraquecer os valores e as lições morais nelas contidas, comprometendo, assim, a formação ética e emocional dos indivíduos, especialmente as crianças. Esse processo de relativização do bem e do mal, do certo e do errado, é particularmente evidente na reinterpretação de figuras míticas que, ao serem desprovidas de seus significados originais, podem contribuir para a distorção da percepção moral das gerações futuras.

Crítica | Wicked (2024)

Os mitos e as grandes histórias, com seu vasto repertório de arquétipos, são veículos de significados profundos e universais que desempenham um papel fundamental na formação da visão de mundo e na edificação dos valores morais das crianças. Joseph Campbell, em sua obra seminal, demonstrou como essas narrativas fornecem um caminho para a superação de desafios, inspirando virtudes como coragem, autoconhecimento e determinação. A repetição desses símbolos e arquetípicos nas narrativas permite que os mais jovens absorvam lições sobre sacrifício, amor, justiça e outras virtudes universais que orientam a conduta humana.

Entretanto, inserido no contexto pós-moderno, caracterizado pela primazia da subjetividade e pelo relativismo moral, Wicked desconstrói as virtudes que tradicionalmente sustentam tais narrativas. O filme, de maneira quase subversiva, justifica as atrocidades e a tirania perpetradas pela Bruxa Má do Oeste, apresentando-a como a única figura virtuosa da trama, vítima da opressão e da corrupção de uma sociedade que a marginaliza, levando-a à prática do mal. O mal, assim, se torna relativizado, e a “heroína” da história, interpretada por Ariana Grande, é caracterizada como fútil, oportunista e débil. O Mágico, que na versão de 1939 se configura como uma figura de sabedoria e capacidade de levar os protagonistas a perceberem que as virtudes que procuram já estão presentes dentro deles, é reduzido a um charlatão indolente e ineficaz. O personagem que, de fato, demonstra algum tipo de consciência moral é subjugado, sendo desvalorizado em uma cena emblemática em que ele entra em uma biblioteca despertando  atenção física de todos os homens e mulheres à sua volta, enquanto, ao pisar sobre os livros, subverte a função do conhecimento e da educação, instigando uma visão anti-intelectual que se reflete na canção que diz que "pensamento é tormento", que não há razão para estudar já que “na vida não há vestibular” e que a  escola “apenas ensina o que aborrece”  desafiando, assim, toda a tradição educacional e intelectual de nossa civilização.

Crítica | Wicked (2024)

Richard M. Weaver, em sua análise das ideias culturais e filosóficas, argumenta que elas têm um impacto profundo e duradouro na sociedade. Quando tais valores são disseminados em filmes voltados para o público infantil, a questão se torna ainda mais preocupante, pois pode-se formar uma geração imersa na relativização moral e na desvalorização do saber.

Em termos formais, o filme é bem-sucedido na recriação da ambientação de Oz, construindo de maneira convincente as fronteiras deste universo e estabelecendo uma dinâmica social coerente. A direção de arte merece, sem dúvida, destaque por suas conexões com o filme original, criando uma fusão entre elementos clássicos e modernos na construção dos cenários.

Entretanto, se considerarmos a composição musical, Wicked não atinge o nível de excelência alcançado pela versão de 1939, que produziu um repertório musical original composto por Harold Arlen e E.Y. Harburg, cujas canções possuem uma qualidade inigualável. Wicked, por sua vez, recorre às músicas do musical da Broadway, que não se comparam em termos de sofisticação e profundidade às composições do filme de Victor Fleming.

Em resumo, embora Wicked se proponha a entreter um público infantil, não cumpre responsavelmente essa missão. Embora apresente alguns momentos de interesse, a obra não inova substancialmente em sua forma, funcionando, assim, como um exemplo paradigmático daquilo que o filósofo polonês Zygmunt Bauman denominou recentemente como "cultura líquida", onde as referências, os valores e as normas se tornam instáveis e volúveis, subvertendo a estabilidade das narrativas tradicionais e suas lições essenciais.


Crítica | Wicked (2024) - por: Douglas Esteves Moutinho

 
 

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