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Crítica | Repulsa ao Sexo (1965)

  • 5 de ago. de 2025
  • 5 min de leitura

A contradição do carrasco 


Repulsa ao sexo de 1965 é o primeiro longa do cineasta Roman Polanski falado em inglês. E é também a junção de sua direção visceral com o talento pulsante da atriz francesa Catherine Deneuve em seu auge físico e artístico que no mesmo período, em 1967, estrelara o icônico A Bela da Tarde do Mestre surrealista Luís Buñuel. 

Crítica | Repulsa ao Sexo (1965)

A fusão desses talentos, na época em ascensão, cria uma simbiose sem precedentes para contar através de um intenso thriller psicológico - com influências surrealistas - a história de uma mulher avessa ao desejo carnal e ao toque masculino. Sua rara beleza, o que em tese seria uma dádiva, torna-se maldição em uma trama que explora a obscuridade da relação feminina ante a opressão sutil e latente do sistema patriarcal. Um filme tão complexo e interessante, que até mesmo seus créditos iniciais são dignos de análise e aplausos - o plano detalhe do olho feminino onde os nomes surgem das pálpebras inferiores e desaparecem adentrando as pálpebras superiores. 

Aqui Deneuve interpreta Carol Ledoux, a dona dos olhos da abertura, uma jovem frígida e melancólica que devido a sua beleza exuberante, atrai os olhares e a atenção dos homens ao seu redor. Despertando desejo e sendo alvo constante de impropérios lascivos, o que torna uma simples caminhada - como destacado num plano semi-sequencial de em plano médio de costas logo no início do longa - torna-se um oceano de desconforto e pavor. 

A jovem que vive com a irmã mais velha, Hèlene, interpretada por Yvonne Furneaux, uma mulher extrovertida que vive um relacionamento com um homem casado a quem a irmã caçula detesta. O homem em questão é Michael, interpretado por Ian Hendry, um sujeito despojado e galanteador, que parece roubar o espaço de Carol a cada passo dado: seja pela tomada do banheiro com sua lâmina de barbear e escovas de dentes ou mesmo pela cortesia incomoda. Ele é a representação máxima da repulsa da mulher ao sexo oposto. Algo escancarado na cena em que o homem e a irmã tem relações no quarto ao lado e os sons simplesmente enlouquecem Carol em seu recinto. 

A medida que acompanhamos o desenvolvimento de Carol, sentimos sua palpável melancolia, assim como seu igualmente palatável desconforto, evidenciado principalmente com a entrada de um elemento que a corteja forçosamente, o rapaz, chamado Colin, interpretado por John Fraser, é obstinado e invasivo e sua intromissão vai minando a própria sanidade da personagem pouco a pouco - a cena em que ele lhe força um beijo e a mesma corre para escovar os dentes é a evidência do pavor justificado pelo masculino.

Crítica | Repulsa ao Sexo (1965)

A aversão de Carol é tamanha, que confere signos de liberdade àquilo que é considerado o oposto no modelo de sociedade ocidental. Aqui, as Freiras no convento - vistas em perspectiva diagonal da janela de Carol, quase como uma espiada - em seu momento de lazer, são o objetivo intangível de uma alma que deseja a distância do toque masculino. Assim como a senhora solitária com seu cão - vista através da vinheta circular do olho mágico da porta - que é analisada sob a ótica da jovem, como um modelo de satisfação pessoal. 

O ritmo do longa propõe uma escalada coesa do desconforto rumo à loucura. De modo que essa transição acontece quadro a quadro, com gatilhos específicos que potencializam sua degeneração mental - como o beijo roubado, as insinuações e as experiências de outras personagens com homens que se relacionam - para no fim, de fato mergulharmos no pesadelo surrealista e no horror existencial de Carol até literalmente não identificarmos de prontidão o que é real do que é devaneio. 

O símbolo de sua ruína mental pode ser exemplificado pelo Coelho que seria servido no jantar com sua irmã - que de última hora opta por jantar com o amante - de modo que a cada corte na bandeja, o animal está mais mutilado - a presença da navalha de barbear que agora virou arma - e cada vez mais apodrecido, acompanhado de atitudes cada vez mais descoladas da realidade por parte da jovem. 

Tal como o coelho, outra simbologia empregada como medidor de sanidade da personagem são as rachaduras fantasiosas que a mesma vê nas paredes. Enquanto a mesma encontra-se no estágio de desconforto, há apenas um risco na parede, mas a cada estágio que ela avança, a casa parece literalmente desabar sobre seus ombros.

Aqui, o gatilho para o desconforto é a intromissão, já o gatilho final, é causado pela invasão de fato. A ruptura que parte do patriarcado, numa demonstração violenta de controle travestido em palavras meigas. A vinheta circular entrega um homem descontrolado avançando contra a porta para arrombá-la e a vítima em pânico, aguarda o resultado da invasão, para enfim perder sua razão por completo.

A medida que isso acontece, ela passa a padecer de devaneios que remontam seu passado e seus temores. Mãos masculinas saídas das paredes lhe infligem o toque a morte e o pesadelo vivido de um ato sexual não consensual, transforma o sono numa experiência mórbida de violação. Ela vive esse trauma de maneira tão intensa, que acorda despida - como destacado num plano aberto superior - e jogada no chão do quarto, como um objeto usado que fora descartado. 

Para tal concepção de horror, o papel da fotografia em preto e branco é determinante. Tanto na atmosfera gélida e opaca do horror, como para o reforço da morbidez. Mas tão importante quanto a imagem é o som como braço da proposta narrativa. E nesse caso o som é em boa parte, o silêncio, ou pequenos incômodos sonoros que criam uma experiência claustrofóbica sentida de maneira abissal. É o som do relógio a cada devaneio de estupro que cria uma sensação de eternidade no ato ou mesmo o silêncio sepulcral que domina a vida de Carol, que interpreta mais com o olhar e o gestual do que propriamente com palavras. Seu mundo e seu medo é silencioso e Polanski explora isso. 

A chegada do último catalisador do caos, na forma do senhorio da casa onde a mesma vive de aluguel, deflagra um vulto obscuro do passado através de uma lembrança de família. E talvez sua aparência austera e sua supostamente vivência, que lhe dão o ar de respeitabilidade reforcem esse retorno ao passado. Ele invade o espaço de Carol tal como o jovem Colin, porém, detendo as chaves do local, uma metáfora potente do abuso no seio familiar - alguém que tem a chave, que tem passagem, que pertence à família. 

Por fim, a fotografia como supostamente lembrança inocente, entrega a chocante verdade. Mas talvez a verdade mais chocante por trás dessa história, seja a de que a foto desbotada que aponta o carrasco de meninas, na verdade encontra seus reflexo por trás das lentes que denunciam o horror. Um plot twist macabro que o próprio Polanski não ousaria filmar.


Crítica | Repulsa ao Sexo (1965) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro



 
 

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