Crítica | Obsessão (2026) - a nova tendência do terror contemporâneo
- 10 de jun.
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O terror sempre ocupou, ao longo da história do cinema, um espaço associado à ruptura, ao excesso e à transgressão. Historicamente marginalizado por parte da crítica tradicional, o gênero construiu sua identidade justamente através da sujeira estética, da violência gráfica, da exploração do corpo e da disposição constante para atravessar limites morais, visuais e narrativos. Em obras como O Massacre da Serra Elétrica, a precariedade técnica não surgia como deficiência, mas como potência estética: o ruído visual, a câmera instável, a iluminação agressiva e a sensação quase documental de degradação produziam um horror profundamente material e social. O terror não buscava conforto, sofisticação ou respeitabilidade; buscava confronto.

A domesticação do gênero
No entanto, o horror contemporâneo parece atravessar um processo progressivo de domesticação. Se antes o gênero lidava diretamente com questões ligadas à classe, à violência urbana, à sexualidade, à decadência social, à paranoia política e ao colapso familiar, hoje grande parte do terror desloca seus conflitos para dimensões mais abstratas. Em um cenário cultural marcado pela intensa exposição pública de discursos e posicionamentos, pela vigilância moral das redes sociais e pela rápida problematização de obras consideradas ofensivas, o terror encontra na abstração psicológica uma estratégia de sobrevivência. Quanto menos diretamente uma obra nomeia grupos sociais, conflitos políticos ou tensões culturais específicas, menor tende a ser o risco de atrito público.

Não por acaso, o terror atmosférico cresce justamente no momento em que o cinema de horror parece cada vez menos disposto a confrontar frontalmente determinadas violências da realidade contemporânea. O horror torna-se seguro. Perturba, mas cuidadosamente; inquieta, mas dentro de limites formais rigorosamente controlados. A violência gráfica é reduzida, a nudez torna-se cada vez mais rara e o grotesco passa a ser enquadrado dentro de uma estética sofisticada e visualmente elegante. Esse processo de aburguesamento não se manifesta apenas no conteúdo, mas também na forma. A fotografia cristalina em widescreen, os movimentos sutis de câmera, o minimalismo sonoro e a mise-en-scène calculadamente elegante revelam um gênero que busca legitimidade estética dentro dos parâmetros dominantes da produção cinematográfica mainstream.
Ainda existe autoria dentro do terror contemporânea?
Entretanto, reduzir essa transformação a uma simples decadência seria igualmente simplista. Os primeiros expoentes dessa onda contemporânea de terror psicológico foram fundamentais para revitalizar um gênero que, durante os anos 2010, encontrava-se artisticamente esgotado e industrialmente saturado. Mesmo dentro de um sistema aparentemente fechado e domesticado, alguns realizadores ainda conseguem produzir obras genuinamente autorais. Da mesma forma que os críticos ligados aos Cahiers du Cinéma identificaram marcas autorais em cineastas inseridos no sistema industrial hollywoodiano, também é possível perceber singularidades expressivas em determinados realizadores contemporâneos que operam dentro das limitações formais do horror atmosférico.

É justamente nesse contexto que surge Obsessão.
Obsessão parte de uma premissa aparentemente simples: o jovem Bear utiliza um objeto sobrenatural para fazer com que Nikki se apaixone por ele. O desejo funciona, mas de maneira monstruosa. Nikki deixa progressivamente de agir como uma pessoa real e passa a existir como manifestação grotesca da carência afetiva e da fantasia de controle do protagonista. Seu amor deixa de ser afeto para se transformar em dependência absoluta, invasão e violência emocional.

Conclusão: Obsessão (2026) vale a pena?
Embora o filme evidencie algumas das limitações formais do horror contemporâneo, Obsessão consegue preservar um núcleo temático profundamente humano dentro da estética característica do terror psicológico atual. Apesar da fotografia limpa, da atmosfera melancólica e da mise-en-scène elegante típicas do chamado horror de prestígio, o filme ainda trabalha diretamente com questões reconhecíveis da experiência contemporânea: a solidão masculina, a idealização romântica, a incapacidade de lidar com a rejeição e o desejo de posse emocional. O sobrenatural não funciona apenas como metáfora abstrata, mas como extensão monstruosa de impulsos afetivos extremamente concretos. Ainda que seu grotesco permaneça cuidadosamente controlado e a violência raramente exploda de maneira verdadeiramente desconfortável, existe no filme uma tensão produtiva entre sua embalagem sofisticada e o desconforto emocional genuíno presente em seu núcleo narrativo. Diferentemente do horror dos anos 1970, que utilizava o ruído, o excesso e a degradação estética como formas de agressão sensorial, Obsessão enquadra seu horror dentro de uma estética limpa e prestigiosa sem eliminar por completo o potencial crítico e perturbador que historicamente definiu o gênero.
Com certeza é um título que ainda será lembrado por alguns anos como um dos principais nomes do terror da sua época e tende a agradar e, a longo prazo, ser ainda mais explorado graça a suas mais diversas camadas.
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