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Crítica | Nostalgia (1983)

  • 27 de mar.
  • 4 min de leitura

O exílio como autobiografia na cinematografia de tarkovsky


1. Introdução: O Grito de um Artista

Um dos mais complexos trabalhos de Tarkovsky, é também o retrato mais íntimo do diretor e o confronto definitivo entre Andrei e Tarkovsky, entre o homem e o artista e as aspirações de ambos que se veem em choque diante da sufocante burocracia estatal. Nostalgia é o filme que marca definitivamente a ruptura entre Tarkovsky e o Revisionismo Soviético e inicia uma jornada de exílio auto-proposto, em nome de salvar sua arte de burocratas que não a compreendem e a estrangulam no nascedouro.

Crítica | Nostalgia (1983)

2. Contexto Histórico: O Artista versus a Máquina

Para entender a proposta do filme, é necessário, primeiro a compreensão do panorama histórico ao qual a mesma se vê inserida, a história que cerca Andrei e a URSS de seu tempo: Tarkovsky torna-se cineasta em um período relativamente complexo em seu país. Após a morte de Stálin, um grupo que ficaria conhecido como Revisionista, chega ao poder do Partido Comunista. E tal grupo, iria dispor de um tratamento rígido às expressões artísticas que estivessem em dissonância com a proposta do Realismo Soviético, o que na prática, sugere maior controle Estatal sobre a liberdade autoral e menos financiamento para aqueles que não se adequem à proposta dos órgãos reguladores. Nesse contexto, surge o Jovem cineasta Andrei Tarkovsky, que desde o início, flertava entre o prodígio e o Rebelde, cuja obra era encarada como individualista e também uma expressão de arte pela arte.


3. Alter-Ego e Conflito Íntimo: Gorchakov como Espelho

Nostalgia marca então a fase final deste impasse. A jornada do poeta Andrei Gorchakov na Itália é um espelho direto do exílio de Tarkovsky, transformando o protagonista em um verdadeiro alter-ego. Através dele, o diretor projeta na tela o conflito íntimo de sua própria psique: a saudade da pátria (a Rússia, apresentada em sonhos, num vívido preto e branco) em choque com o dever para com a arte (o presente úmido e nebuloso da Itália).


4. Linguagem Cinematográfica: A Nostalgia como Forma

No longa, o diretor, como de costume, trabalha diversas questões filosóficas, porém, numa proporção menos descartiana e socrática que em longas anteriores, como Solaris e Stalker, por exemplo, onde há até mesmo o referencial do Complexo de Edipo, em uma análise Freudiana. Nesse, a análise aponta para dentro de si, quase como uma psicanálise audiovisual do mesmo. Vemos discussões relevantes sobre o papel da mulher na sociedade ocidental, como destrinchado no início do longa, porém, a jornada particular do protagonista é o cerne do enredo e a cinematografia faz questão de apontar para isso. Desde as estáticas envoltas em silêncio, os enquadramentos abertos que reforçam a solidão e o martírio, como no plano-sequência estendido de Andrei na cama, imóvel enquanto o mundo úmido de Bagno Vignoni se move-se vagarosamente pela janela, materializando o estado de paralisia e enclausuramento da nostalgia, passando pelas quebras de quarta parede através do olhar de quem, sem verbalizar, comunica seus sentimentos ante ao público. A troca das paletas também reforça esse conflito entre o passado deixado para trás, o contraste entre o vívido preto e branco do passado, em detrimento do presente opressivo e disforme, realçado pela névoa, a umidade e as cores lavadas, tal como no trabalho das estáticas com as silhuetas e a aproximação morosa, destacando finitude a cada momento.

Crítica | Nostalgia (1983)

5. Símbolos e Encontros: A Casa, o Espelho e o Louco

A busca pelo passado do músico Pavel Sosnovsky e o encontro com o "louco" Domenico, dão o tom de busca vs encontro com a própria identidade, como escancarado na cena do espelho, onde Andrei reflete Domenico. De forma que, ao adentrarmos na confusa residência de Domenico, estamos na verdade, vislumbrando um cantinho insólito e ilógico da mente do próprio Tarkovsky, um espaço de bagunça organizada e de lógica propositadamente distorcida, afinal 1+1=1.


6. O Duplo Feminino: Eugênia e o Conflito Interno

A jornada do protagonista, divide atenções com Eugênia, a tradutora italiana, símbolo do conflito interno do próprio diretor, que agora, irá viver sua vida na terra da bota, traindo assim, em sua visão, seu país e seu propósito, porém, salvando sua arte como consequência. Os diálogos entre Eugênia e Andrei são riquíssimos, tal como seus períodos de silêncio, e ajudam a entender a dualidade entre o amor e a culpa que pairam sob a mente do cineasta.


7. Conclusão: Sacrifício e Legado

A jornada de Andrei e Domenico os leva a uma épica conclusão, que demarca sua missão compartilhada, onde um termina o trabalho do outro, onde há o choque do fogo e as chamas tem diferentes significados para ambas as situações em que apresentam. Assistindo Nostalgia e estudando a obra de Andrei Tarkovsky, nos deparamos com um amante do cinema, que foi vítima de sua própria arte, seja pelo abismo que a mesma acabou por proporcionar entre ele e tudo que amava e conhecia, ou mesmo por levá-lo ao ocaso, visto que o câncer que vitimou o diretor, fora consequência de seu trabalho na fábrica de químicos que deu vida a Stalker. Um homem que morreu pela arte e nos salvou de uma vida sem seu brilhantismo, seria ele próprio uma metáfora do Messias?


Crítica | Nostalgia (1983) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro

 
 

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