Crítica | O Ódio (1995)
- 20 de fev.
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a queda que atravessa a vida
A parábola do homem que cai de um prédio conta que ele vai se reconfortando em meio a queda. Antes de tocar o solo ele vai dizendo: até aqui, tudo bem, até aqui tudo bem! Mas o importante não é a queda e sim a aterrissagem.
Parábola essa, utilizada por Said no longa O Ódio dialoga com o drama vivido pelos imigrantes e descendentes dos mesmos, que vivem na França. Sobre a opressão da polícia, políticas públicas de Apartheid Social e grupos de ódio organizado, o filme mostra não só a queda vertiginosa dos mesmos, mas o impacto da brutalização que desemboca em uma terrível e mortal aterrissagem.

O filme desde o início dialoga com outra obra-prima do cinema - Taxi Driver, de Martin Scorsese - que divide com ele, questões existenciais da vida ante as consequências de um sistema moldado para o sofrimento humano e a brutalização individual, que é a ferramenta de recrutamento do fascismo e também, a força motriz de uma fábrica de espantalhos.
O diálogo com a obra de Scorsese vai muito além das referências pontuais, como a cena em que Vinz interpretado por Vincent Cassell, reprisa o famoso "tá falando comigo", em frente ao espelho, ou a cena do cinema, onde ele usa os dedos para "atirar" na tela. Mesmo enquadramento, mesma simbologia, mas o elo que os liga está ainda mais intrínseco na discussão sobre o papel da sociedade e da força política na brutalização dos seus excluídos.
Nesse longa, dirigido Matthew Kassowitz, ele nos apresenta três arquétipos ao qual o ódio do cidadão médio europeu é prontamente direcionado: o árabe, o africano e o judeu. Dos pogrons europeus, passando pelo Reich Alemão até chegarmos nas manifestações de ódio recente, a Europa sempre elegeu os culpados pelas inevitáveis crises do capitalismo e sua proposital inabilidade em conter conflitos étnicos, ignorando completamente que toda essa celeuma é produto, principalmente, de sua política colonial, que na prática nunca acabou.
Inspirado em eventos reais de violência policial ocorridos na França, que desencadearam em 93, uma série de protestos violentos na cidade de Paris, após o espancamento de um jovem de origem africana - caso longe de ser isolado e que fora repetido e encorajado por políticos de extrema direita ao longo dos anos 80 e 90 - transformando assim, a cidade Luz numa praça de guerra entre o Estado mínimo e seus excluídos.
A ideia de traduzir toda essa violência em uma noite, transforma o relógio num medidor de distância entre os protagonistas em queda livre e a aterrissagem em seu doloroso desfecho. A escolha por cortes ritmados pelo som de tiros, portas, passos e o próprio relógio que informa que o chão se aproxima, torna a experiência uma sentença de morte em vida.
Para o êxito de sua narrativa, as escolhas cinematográficas de Kassowitz precisavam entrar em ressonância com o tema. Para tal, a fotografia em preto e branco mostrou-se um acerto. Aproximando o espectador de um drama real e contemporâneo - ainda mais nos tempos atuais - porém com aspecto sombrio de passado. Tal como o uso dos enquadramentos e da luz, que dialogam com essa sensação de isolamento em meio á multidão e ódio que gera mais ódio. Seja pelas sombras que criam silhuetas, close-ups que reforçam sensações - como o feito no assassinato do segurança da boate, onde o rosto de Winz em pânico, contrasta com o ato - médios que dividem o protagonismo e a dor em cena - como a cena do banheiro, onde um idoso conta sua sina na Sibéria - assim como o diálogo entre câmera e trilha. Dos sons ambiente, ao silêncio cortante, o hip-hop acaba sendo signo da rebeldia dos renegados contra o sistema que os mantém nessa condição.
O Ódio é um filme que dialoga com o passado da França, o presente na época de seu lançamento e o futuro, que é o nosso presente. A citação do hoje fantasma de Jean-Marie Le Penn - como diz o ditado: "o diabo foi embora, mas deixou um secretário" - que reverbera sua ideologia podre através de sua prole, mantém sua falácia ao custo de sofrimento e morte.
Crítica | O Ódio (1995) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro


