Crítica | De Crápula a Herói (1959)
- 13 de mar. de 2025
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Atualizado: há 20 horas
Um filme de Rosselini é sempre um filme de Rosselini!
Para o cineasta brasileiro Glauber Rocha, Rosselini é o auge da expressão artística do Neorealismo Italiano no cinema e o mais influente cineasta do Mundo no contexto do Pós-Guerra, tanto que o mesmo, após a morte do gênio italiano em 1977, declarou que a partir daquele dia, o cinema estava órfão.

Se há discussão sobre Roberto Rosselini ser ou não o Hor Concour do Movimento Neorrealista, ainda mais considerando a competição interna - Viscontti, Fellini, De Sica, De Santis e tantos outros - o debate é menos aberto no que diz respeito a ser ele, o cineasta que melhor captou em essência o drama, as concessões, o colaboracionismo e o espírito quebrantado do povo italiano durante a Segunda Guerra Mundial, sobretudo, após a ocupação nazista, já no fim da Guerra, após a Queda do Ditador Fascista: Mussolini. Exemplos dessa abordagem não faltam, como Roma, cidade aberta, Paisá e é claro: De Crápula a herói, objeto desta análise.
Objeto esse que se encontra no crepúsculo do Movimento. E sob o limiar entre o Neorrealismo e o Cinema Moderno, vemos este filme como um exemplar da fusão entre diferentes estilos, diferentemente da expressão quase documental de Paisá, por exemplo, com estrutura narrativa que mais o aproxima de um thriller de suspense em relação a ortodoxia proposta pelo movimento, mas preservando na forma, o diálogo com o mesmo. Para além dos cenários, dos trechos documentais que utilizam imagens de arquivo e dos bombardeios, vemos no uso naturalista da luz nas externas, a baixa iluminação na representação gélida e úmida do presídio, porém aqui, não como artífice para driblar a precariedade, mas como recurso aliado á dinâmica proposta em cena. É um passo adiante, mas que não esconde as pegadas que construíram o caminho até ali.
Il generale della Rovere título original do longa, une duas entidades sagradas do Neorrealismo, o Diretor Roberto Rosselini e o ator Vittorio de Sica - que como Diretor, fora o que melhor capturou a atmosfera caótica do pós-guerra na Itália, com seus brilhantes Ladrões de bicicletas e Umberto D. - sob a direção de Roberto, Vittorio tem aquela que talvez, seja a mais emblemática atuação de sua carreira.
De Sica interpreta Emanuele Bardone, um vigarista que se passa por Coronel para aplicar golpes em parentes de presos políticos durante a ocupação nazista na Itália, que após ser pego, é forçado a se passar por um General da resistência, afim de delatar opositores da ocupação. Uma jornada de colaboracionismo e conveniência, que vai se transformando em uma jornada de resistência, redenção e martírio de alguém que representou tão bem o herói, que teve de arcar com a consequência final de sua representação. O Sacrifício quase messiânico, que mantém viva a chama da resistência. O enredo, uma adaptação do conto do jornalista Indro Montanelli, ganha sob as lentes de Rosselini e a atuação de Vittorio, uma digna representação.
O filme começa, como costumeiramente na obra de Rosselini, com sua primeira imagem de impacto: um plano fechado em movimento que capta cartazes de propaganda nazifascista expostos em uma parede suja, com ameaças ao não colaboracionismo e também a resistência, sempre colocando a execução sumária como punição aos "conspiradores", em seguida, o movimento da câmera que abre a imagem num plano médio diagonal, destacando uma mórbida marcha de patrulha dos Camisas Negras, entoando uma de suas infames canções de guerra.
A partir dali, o filme se divide em dois arcos distintos: o arco do Crápula - que apresenta um Bardone golpista, viciado em apostas que se aproveita do caos no país para lucrar com o sofrimentos das vítimas, prometendo-os liberdade aos seus entes, em troca de pagamentos em dinheiro, aproveitando-se da fragilidade emocional dos envolvidos. E por fim, o arco do herói - um herói involuntário, é verdade, porém, renascido sob sua nova identidade de General Della Rovere, vê-se cada vez mais envolvido ao seu personagem, de forma que o convívio com o horror de uma prisão nazista, acaba por torná-lo quem ele deveria representar. Um herói que tem como seu principal mérito heroico, frustrar a manipulação nazista e impor uma dura derrota moral, mostrando que até o mais vil dos homens, pode ser um braço de resistência.
O grande antagonista da trama, acaba por ser o próprio Regime Opressor Nazista e também, as sombras anêmicas do que restara do Fascismo Mussolinista. Porém essa opressão nem sempre se apresenta da maneira visivelmente truculenta e atroz. Aqui, ela assume um dos seus disfarces mais perversos: a máscara da virtude! E a personificação dessa falsa virtude e complacência, atende pelo nome do Coronel Mueller, da SS, interpretado por Hannes Massemer, um sujeito dissimulado, falsamente civilizado, que manipula o protagonista para alcançar os objetivos do Reich e punir aqueles que lutam contra a opressão de seu regime. Um personagem complexo, com um deturpado senso de moral e civilidade, que o torna mortalmente perigoso - um momento que exemplifica essa dualidade suja, acontece no interrogatório do Prisioneiro Banchelli, ao qual o Coronel tenta comprar traição com liberdade, mas na insistência do silêncio, vê-se "obrigado" a apelar para a força e autoriza uma atroz sessão de tortura ao sujeito - moral dúbia, com diversas concessões de hostilidade animalesca formam um retrato do Burocrata Nazista, escondido na liturgia institucional.
A fotografia em preto e branco é um dínamo e torna a experiência ainda mais atrativa. Principalmente quando levamos em conta a utilização dos cenários que remontam a tragédia italiana no pós-guerra, um trunfo do Neorrealismo, que explorou a própria catarse estrutural do país, para assim, comunicar com seu povo e com o mundo, as consequências sórdidas de seguir um lunático que ruma para o precipício. É a magnitude da mensagem do cinema, ecoando para além de sua bolha.
Um filme para crítica, aspirantes ao cinema e cinéfilos de todo o mundo. Uma das mais improváveis jornadas descritas pelas lentes de Rosselini, com um dos mais trágicos e poéticos desfechos já produzidos pelo movimento neorrealista - ou por seu ocaso, como queiram. Uma obra digna de seu progenitor, premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1960. Mas isso é o que menos importa, afinal, um filme de Rosselini é sempre um filme de Rosselini.
Crítica | De Crápula a Herói (1959) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro


