Crítica | Minha melhor amiga (2026) - a crônica deficiência da comédia brasileira
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O paraíso da classe média
Crise de meia-idade, uma mãe solteira às voltas com questões afetivas, outra enfrentando impasses conjugais, filhas adolescentes a caminho da Europa para estudar. Juntas, as mães Clara e Júlia – Ingrid Guimarães e Mônica Martelli – decidem visitar um cartão-postal europeu, Lisboa, para escapar da trivialidade de suas vidas e se permitir novas experiências. Na capital portuguesa, conhecem belas personagens masculinas, meticulosamente construídas a partir do arquétipo do bon vivant e, curiosamente, sempre atraídas pelas duas mulheres. Médicos humanizados, historiadores da arte e proprietários de hotéis que abandonaram o mundo corporativo: Lisboa parece oferecer um paraíso às duas amigas, desejosas de se entregar a aventuras descompromissadas e desvinculadas de suas relações transnacionais.
O argumento do filme – centrado nas inquietações de um universo supostamente oriundo de uma classe média branca, também supostamente culta, que se ocupa de seus problemas particulares, psicológicos e relacionais enquanto permanece alheia à heterogeneidade da sociedade – poderia ter sido assinado por Woody Allen. No entretanto, a semelhança desvanece-se quando o argumento se converte em roteiro, atuação e mise-en-scène – em outras palavras, quando a história se torna filme.

Cidades desprovidas de expressão
É impressionante como algumas obras escancaram o óbvio: a forma se sobrepõe ao conteúdo. Sob a direção de Susana Garcia, Lisboa e Sevilha tornam-se cidades desprovidas de expressão. Sua lente não consegue dar voz àquilo que já gritava. A beleza que emerge na tela é aquela que as próprias cidades naturalmente emanam, mas sem qualquer amplificação proporcionada pelo olhar da artista. Se nem mesmo esse aspecto alcança um resultado expressivo, resta apenas uma conclusão: a direção limitou-se a ilustrar o roteiro. Não há qualquer olhar autoral.
A insuficiência se repete quando os demais elementos são observados com algum cuidado. As atuações não convencem; as falas soam artificiais – embora tentassem soar naturalistas –; e os enquadramentos e cortes, impositivos, não concedendo ao espectador alternativa alguma além de compactuar com a genericidade daquilo que lhe é apresentado.

A tutela do espectador
Como se isso não bastasse, impõem-se ainda dois minutos de um epílogo narrado, pois o filme parece pressupor que o espectador seja incapaz de deixar a sala de cinema e refletir sobre o que acabou de assistir. O menosprezo pela capacidade intelectual do público é tamanho que se considera necessário oferecer-lhe uma mensagem sob a forma de lição moral, mesmo quando o filme, de maneira inequívoca, já terminou.
Uma comédia sem riso
Mas e a comédia propriamente dita? Há muito pouco de cômico, e quem mais ri são as próprias atrizes, sobretudo de si mesmas. Não se trata de um desperdício absoluto, mas os momentos efetivamente engraçados são escassos e as oportunidades, pouco aproveitadas. Na verdade, a cada nova comédia lançada pelo cinema brasileiro, torna-se mais evidente que O Auto da Compadecida constituiu uma raríssima exceção.
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