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Crítica | Michael (2026) - entre a estetização performática e a rarefação dramática

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Michael (2026), cinebiografia de Michael Jackson dirigida por Antoine Fuqua, configura-se como o mais recente êxito de bilheteria no circuito exibidor internacional, fato pouco surpreendente em virtude da magnitude simbólica do nome biografado. Não obstante, a narrativa fílmica restringe-se aos primeiros trinta anos de vida do músico; e, embora tal recorte temporal sugerisse uma abordagem mais detida e minuciosa desse período inaugural, o que se observa é precisamente o oposto. A diegese é atravessada por sucessivos saltos temporais – por vezes de feição arbitrária – que acabam por obliterar episódios centrais da trajetória de Michael.

Michael (2026) - Jaafar Jackson como Michael Jackson

A centralidade performática de Michael Jackson


Todavia, não é apenas no âmbito das ausências que residem os problemas da obra. Muito do que compromete o filme manifesta-se naquilo que efetivamente se apresenta em cena, sobretudo no que concerne ao roteiro e à sua execução. O texto de John Logan parece operar primordialmente como um dispositivo legitimador para a sucessão de sequências performáticas que estruturam o filme. Não por acaso, esse constitui o seu principal mérito: o domínio das dimensões coreográficas e musicais, igualmente sustentado pela atuação do protagonista Jaafar Jackson, sobrinho de Michael, cuja performance revela-se notável no plano musical, ainda que menos convincente na esfera dramática.

Michael (2026) - Jaafar Jackson em atuação performática de clip musical

Superficialidade dramática em Michael


Quando a narrativa se afasta do universo da música e da dança, emergem problemas recorrentes, sendo o mais evidente a insistência em uma cosmovisão rigidamente maniqueísta. Michael é reiteradamente construído como figura moralmente irrepreensível – bom, inocente, empático, caridoso e honesto, ao passo que seu pai, Joe Jackson, é configurado como antagonista absoluto. Nem mesmo a atuação de Colman Domingo - de Sing Sing - logra conferir densidade a esse personagem, cuja caracterização permanece circunscrita a traços de violência, toxicidade, indelicadeza, ausência afetiva e ganância. A polarização extrema entre esses dois polos dramáticos, desprovida de qualquer aprofundamento psicológico, torna patente a fragilidade narrativa, perceptível mesmo ao espectador menos atento. Ademais, apesar de sua superficialidade, esse constitui o único arco dramático efetivamente abordado pelo filme.


Ausências essenciais para o desenvolvimento dramático


Tal limitação conduz a um segundo problema estrutural: a ausência de figuras fundamentais para o desenvolvimento artístico de Michael. Personalidades como Janet Jackson, Diana Ross, Van Halen, Mick Jagger, Lionel Richie e Quincy Jones são praticamente ignoradas, apesar de sua relevância incontornável na constituição profissional do artista.

Outras lacunas igualmente significativas dizem respeito às controvérsias que marcaram a imagem pública de Michael ao longo de sua vida. Questões relacionadas a denúncias de abuso – sequer mencionadas, bem como aquelas vinculadas a doenças e intervenções cirúrgicas – apenas tangencialmente abordadas, são sistematicamente evitadas. Tais omissões configuram soluções narrativas simplificadoras, orientadas à produção de uma obra leve e centrada no fan service. Essa mesma lógica se evidencia tanto na resolução apressada do núcleo familiar quanto na abordagem dos momentos de maior potencial criativo do artista, nos quais se prescinde de qualquer elaboração dramatúrgica mais sofisticada.


Michael (2026) - poster sem título

Uso equivocado de CGI em Michael


Um terceiro eixo problemático refere-se à estranheza de determinados elementos formais, perceptível sobretudo na representação de animais e na maquiagem excessiva de Joe Jackson. Tal sensação estende-se às próprias performances: embora registradas com competência técnica, as sequências que incluem o público apresentam cortes tão rápidos que suscitam a impressão de que a utilização de CGI foi insuficientemente integrada, tornando perceptível a distinção entre figurantes e efeitos digitais.


Michael (2026) - Colman Domingo como Joe Jackson (maquiagem)

Conclusão: Michael (2026) vale a pena?


Ademais, as complexidades envolvendo o espólio de Michael parecem ter condicionado significativamente o processo de produção, implicando regravações de diversas cenas. Soma-se a isso um corte substancial, na pós-produção, de aproximadamente duas horas de material, o que resulta em uma montagem que se aproxima mais de uma justaposição de momentos desconexos da vida do biografado do que de uma narrativa coesa.

Em última instância, Michael configura-se como uma obra orientada simultaneamente à satisfação dos fãs e dos detentores do espólio do cantor, empenhada em difundir uma imagem depurada e idealizada de uma figura que ainda hoje preserva uma aura de mistério. Trata-se de um filme centrado quase exclusivamente nas apresentações musicais, além das atuações de Jaafar Jackson, no âmbito performático, e de Juliano Valdi, responsável por interpretar Michael em sua infância, oferecendo uma atuação de destaque significativo.

O filme tende a agradar principalmente aos fãs e àqueles que conhecem mais a fundo a biografia do músico.


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Crítica | Michael (2026) - entre a estetização performática e a rarefação dramática - por: Douglas Esteves Moutinho

 
 

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