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Crítica | Fitzcarraldo (1982)

  • 12 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

Fitzcarraldo: o Fardo mitológico de Herzog.


O Mito de Síssifo, na Mitologia Grega, conta a história de um homem astuto que desafiou o poder dos deuses, enganou a morte e por conta disso, foi castigado a carregar uma enorme rocha, montanha acima no Monte Tártaro por toda a eternidade. O trabalho era repetitivo, enfadonho e sem sentido, mas que torna-se seu único propósito existencial.

Crítica | Fitzcarraldo (1982)

Albert Camus em 1942 debruçou-se em um ensaio sobre a metáfora por trás do Mito: no argumento principal, a jornada do homem o leva a ser repelido por forças além de sua compreensão, que o relegam a um trabalho absurdo e sem sentido, porém, na aceitação desta realidade, habita a busca pelo sentido da própria existência humana.

A divagação sobre a face mitológica e a explanação erudita de Camus não são mero acaso ao analisar Fitzcarraldo, a obra-prima máxima de Werner Herzog. Nela, Brian Sweeney Fitzgerald - ou simplesmente Fitzcarraldo - desafia a deidade de um Olimpo colonial - durante o auge do ciclo da Borracha, no início do Século XX - e como condenação por sua astúcia e destreza, é relegado a carregar um barco sobre um montanha, apenas almejando sua emancipação e um trono imaginário que o faz bancar a estranha aventura.

Klaus Kinski, novamente se vê perdido em meio ao nada em uma jornada cinematográfica de Herzog. E semelhantemente com o que vimos em "Aguirre - a Cólera dos deuses", vemos em seu personagem um desbravador intrépido, autossabotando-se em uma jornada de busca por glória e encontro com a escassez e a incerteza. Porém numa dramática reversão, aqui, não vemos um tirano impositivo, mas sim, um bandeirante que sonha com seu próprio trono de ossos e cinzas, mas que se vê limitado por forças que detém um poder que ele não pode alcançar.

Crítica | Fitzcarraldo (1982)

Filmado no coração da Floresta Amazônica, entre Manaus no Brasil e Iquitos no Peru, o filme dialoga com a opressão colonial sobre os povos amazônicos em um período de intensa exploração da região. Seja o ouro, a borracha, a madeira ou a mão de obra barata do povo local, tudo era fonte de riqueza para os barões europeus e de miséria e escassez para o povo traspassado, vilipendiado e roubado.

O longa dialoga com a exploração dos povos indígenas, a tentativa de assimilação cultural e o apagamento de suas tradições, tudo em nome do "progresso" e da "civilização" de um povo "Selvagem" e "exótico" - como sentenciado por Don Aquilino, interpretado por Jose Lewgoy: civilizar essa raça é difícil.

Don Aquilino inclusive, que no papel do Coronel local, acaba sendo ele mesmo, o Zeus que impõe a Fitzcarraldo o fardo da rocha em forma de Barco. Sem fundos após sua última jornada mal sucedida, o protagonista se vê compelido a desafiar o status quo, desbravar a região após o Rio Amazonas e desafiar o poder Olimpiano do Don.

Entre o Mito de Fitzgerald e o de Síssifo, temos o protagonista silencioso que é a razão de sua jornada: a Rocha chamada Moly Aida, o Barco que leva-o a sua jornada rumo a lugar nenhum, ele é personagem, ele é a razão de tudo, ele é a própria jornada - não atoa, Herzog lhe dá destaque em enquadramentos de estrela - seja em seus planos médios que destacam sua epopéia desbravadora, nos fechados que acentuam seu papel de fardo, ou mesmo na diagonal onde ele se torna um assassino, tudo aponta para ele.

Batizado em homenagem a sua esposa, uma Cafetina interpretada por Claudia Cardinalle, que tal como a esposa de Síssifo, o ajuda a enganar o poder divino. Seja pelo ritual funebre não realizado por uma, ou pela ressurreição financeira bancada pela outra, o fato é que ambas dialogam entre si, mantendo vivo o mito de Camus.

Para a atmosfera que cerca outro protagonista não humano, temos uma junção de elementos cinematográficos que fazem da Floresta, o oponente mais desafiador. Ela é o Deus que rege o castigo de Fitzcarraldo e daqueles que ousam o acompanhar. Para tal demonstração de força e imponência, temos uma fotografia crua, quase documental, que explora a floresta em enquadramentos naturais que reforçam sua identidade bela e hostil, assim como a dualidade dos nativos - uma extensão dassa força da floresta - reforçadas por planos médios a meia-luz, em planos abertos nos barcos e na ambiguidade narrativa, que não nos permite entender o seu propósito.

Nesse sentido, o trabalho de edição de som e a própria trilha sonora são fundamentais para a imersão nessa jornada de penitência. Uma escolha de sonoridade igualmente crua, com predominância dos sons da própria floresta. Aqui ela fala, ela dá as ordens e define o tom: Pássaros cantando, o curso do rio, o estalo das árvores, os passos dos nativos, tudo é eco da força invisível que detém o poder da narrativa. Enrico Caruzo é o único elo entre Fitzcarraldo e o mundo que deixou para se aventurar no Tártaro Amazônico.

Pesadelo na ficção e também na vida real, onde a loucura do protagonista é o espelho da insanidade criativa de seu progenitor. Encarando a hostilidade da floresta, Herzog criou uma experiência de pânico compartilhado ao literalmente, atravessar um barco sobre a montanha. Em um tempo em que o CGI não era satisfatório, a audácia do cineasta embarcou não só o elenco, mas uma comunidade local em busca da sua realização artística. De certa forma, ele é Fitzcarraldo, Síssifo, Aquilino e Zeus.

A conclusão dessa Odisséia é a certeza do retorno a ela. O que o belo encerramento pode esconder é que a rocha que mantém Síssifo / Fitzgerald refém, pode apenas mudar de aparência. Afinal, a força do Olimpo segue de pé, assim como Zeus no céu e Hades no inferno.


Crítica | Fitzcarraldo (1982) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro

 
 

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