Crítica | Nuremberg (2026)
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Psicologia, poder e ideologia em confronto
Como acontece em qualquer evento de larga escala, é natural que a Segunda Guerra Mundial tenha servido de base para um número significativo de filmes. Dentre esse repertório de filmes sobre esse tema, o evento já foi explorado sob múltiplas óticas: encenação de batalhas específicas, heroicização de personagens específicas, dramas paralelos fictícios, espetacularização bélica, dramas introspectivos, entre outros.

Em meio a essa gama de possibilidades que a Segunda Guerra Mundial entrega à arte, uma delas desdobram-se nos acontecimentos posteriores ao fim da guerra, mais especificamente, o evento que ficou conhecido como o Julgamento de Nurenberg, onde os nazistas foram acusados e julgados pelos Aliados por crimes de guerra. Retratado algumas vezes no cinema, o acontecimento alcançou a sua encenação máxima na obra de Stanley Kramer, de 1961, onde quatro juízes alemães são acusados de legalizar as atrocidades do regime hitlerista.
Frequentemente quando ocorre no cinema uma grande obra sobre determinado tema, ela se torna referência e guia das produções futuras, estas muitas vezes tornando-se meras reproduções genéricas com atualizações tecnológicas. Definitivamente não foi esse o caso de Nuremberg.
Nuremberg surge com a proposta principal de abordar a relação entre Hermann Göring, marechal do Reich Alemão, e Douglas Kelley, psiquiatra responsável por avaliar líderes nazistas e que fica obcecado em compreender os motivos do Nacional Socialismo através de Göring. Dessa forma, já em sua premissa, Nuremberg situa-se em uma zona pouco explorada da política global dos anos 40.

Adaptado do livro de 2013, The Nazi and the Psychiatrist de Jack El-Hai, o filme configura-se majoritariamente como um longo debate político, ideológico e moral entre os dois protagonistas. Apesar de alguns desses diálogos recorrerem a soluções clichês, a grande maioria deles desdobram-se em indagações pertinentes e ausentes de respostas evidentes. Estimulando reflexões por meio da humanização dos próprios líderes nazistas, James Vanderbilt constrói uma complexa dialética na qual valores, história e motivações se afastam de uma lógica maniqueísta e simplificada comumente encenadas quando o cinema dramatiza a relação entre Eixo e Aliados.
No entanto, embora o filme agrade em diversos aspectos formais e em sua proposta, talvez sua melhor qualidade seja o retorno de Russell Crowe a uma atuação à altura de seu talento. Ao interpretar Hermann Göring, falando em alemão e em inglês com forte sotaque, o ator constrói uma figura marcada por uma aura de superioridade e por um olhar ao mesmo tempo ameaçador e controlador traços associados à figura histórica representada.
Em Nuremberg, a fidelidade histórica tende a se impor como critério central de construção dramática, negligenciando demandas contemporâneas. Essa postura corajosa é digna de elogios em uma época em que a reconstrução histórica mais fidedigna vem perdendo espaço em prol da diversidade. O filme prisma pela plausabilidade, entregando um drama histórico coerente preocupado em construir debates de época, mas ainda assim ancorados no presente, no entanto, situados na mise-en-scène e no roteiro.
Crítica | Nuremberg (2026) - por: Douglas Esteves Moutinho


