top of page

Crítica | As Aventuras de Robinson Crusoé (1954)

  • 11 de fev. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 15 horas

Crusoé: a surreal aventura colonial de Buñuel

 

As Aventuras de Robinson Crusoé de 1954, dirigido pelo Mestre do surrealismo Luís Buñuel é uma adaptação que carrega mais identidade da obra literária de Daniel Defoe e menos do próprio cineasta, em uma jornada que não força muitas rupturas, investe na interpretação litúrgica da obra, mas que se mantém coesa em sua proposta de adaptação e fidelidade.

CRÍTICA | As Aventuras de Robinson Crusoé (1954)

O romance de Dafoe datado de 1719, ganha com Buñuel uma surpreendente representação. Conhecido pela subversão e pela crítica político social que marcou seu trabalho através do Movimento Surrealista, o cineasta aqui se limite a ser descritivo – em alguns momentos até em demasia – e pintar um quadro de Defoe através das câmeras.

  O filme, que conta a história do personagem título, um marinheiro britânico que sobrevivera a um naufrágio e se viu lutando pela sobrevivência em uma ilha isolada, ganha com a atuação de Dan O’Herlihy uma representação que parece saída das páginas do livro. Entregando grande atuação, ele vivencia a jornada de solidão e domínio da natureza em uma jornada de glorificação ao Espírito indômito do colonizador. O homem que domina a natureza, se interpõe à hostilidade do ambiente e posteriormente, domina a “mente primitiva”. E é aí que reside um dos problemas do longa – não o único.

  O ideário colonialista aqui não é um problema isolado, já que o filme dispõe de mais um elemento que reforça que nem sempre fidelidade representa qualidade. E é na escolha de manter o elemento narrativo da narração – do próprio Crusoé, presente no livro – que vemos que há um abismo entre a concepção de uma obra literária e cinematográfica. Se no livro a narração descritiva tem o papel de posicionar o leitor em meio a odisséia do protagonista, aqui ela faz justamente o contrário: ela rouba do espectador a sensação de isolamento, o conflito existencial e a tensão entre homem e natureza. Ela cria um diálogo inexistente que ameniza os efeitos da solidão, portanto, nublando seu principal objetivo narrativo.

  Em suma, podemos dizer que a escolha pela manutenção do narrador e a própria trilha sonora, que lança musicalidade em detrimento da crueza dos sons da natureza e dos silêncios pertinentes ao ambiente – algo como feito em Fitzcarraldo e Náufrago – acaba por transmitir menos isolamento do que de fato deveria. 

CRÍTICA | As Aventuras de Robinson Crusoé (1954)

A primeira metade do filme, mesmo com a questão pontuada acima, se propõe a desbravar a ilha juntamente com o protagonista. De modo que as tomadas da natureza, filmadas em Colima no México, trazem beleza e desafio a trama. Seja pelos planos abertos que destacam a natureza deslumbrante e imponente, ou pelos fechados que destacam a luta do homem contra a hostilidade de seu ambiente – como os planos detalhe da ordenha da cabra ou da coleta de ovos de tartaruga – temos aqui uma abordagem funcional, dinâmica e bem construída. Assim como é bem construída sua relação de respeito e afeto com Rex, o cachorro que é seu companheiro no primeiro arco.

  Há também nesse arco, o surrealismo implícito num sonho lúcido de Crusoé, que vê o próprio pai em uma sala inundada, enquanto o mesmo padece de sede. Um homem aparece em um médio superior – aparentando estar morto – abre os olhos e condena a existência do sobrevivente, assim como seu pai, ambos cravando a morte do personagem na ilha. Um lapso de rebeldia e identidade em um domínio de fidelidade conservadora.

  O arco seguinte, que vai se construindo com o passar dos anos na trama – aqui um destaque para a caracterização do personagem, que realmente vê o tempo passar sobre si – põe o Europeu em choque com a cultura local. E o que antes era isolamento e domínio da natureza, passa a ser imposição cultural e supremacia idealizada – assim como no livro.

  Neste arco, por meio da vinheta circular que representa sua luneta, ele avista o perigo – na forma de nativos canibais. Sua desumanização é mostrada em dois e enquadramentos distintos: o primeiro, num médio que se fecha, mostrando a carnificina cometida pelos tribais. Já o segundo, no sonho lúcido de Crusoé – outra influência surrealista – que imagina uma bomba explodindo os nativos em meio a sua cerimônia arcaica. Motivação e ação, que são as justificativas europeias para civilizações inteiras varridas da história.

  É nesse cenário que surge o emblemático nativo batizado por Crusoé como Sexta-feira, interpretado pelo ator mexicano Jaime Fernandez. Salvo pelo Náufrago de uma punição de sua própria tribo, o colonizador cria entre eles, uma relação de senhor e escravo, onde a assimilação cultural e o apagamento da identidade são marcantes.

  A entrada de Sexta-feira de fato dá novas dinâmica ao longa, que torna-se mais interessante e menos dependente do recurso da narração, porém, proporcionalmente, o mito do salvador europeu se torna ainda mais escandaloso. A começar pelo batismo, que dá ao nativo um nome comum e apaga sua identidade ancestral por completo, a auto nomenclatura de Crusoé como Mestre para com o nativo – ele jamais diz o seu nome ou pergunta o do homem, ele define as relações – o tratamento servil disponibilizado a ele – justificado pelo mesmo como civilizatório – a exigência do aprendizado do inglês – e o desinteresse em aprender o idioma nativo – além da inevitável comparação do tratamento disponibilizado ao Cachorro Rex no primeiro arco para com o local – destacado pelos médios onde ele pisa na cabeça do homem ou quando ele o acorrenta por suspeitas infundadas. A morte de Rex põe fim a inocência implícita na solidão. Sua nova companhia – diferente em origem, igual em espécie – precisa ser delimitada através da raça. É o conforto que o faz superior. E é o que o assombra enquanto sabido carrasco. O cão não amotina ou percebe a exploração. E quanto ao homem?

  A relação entre ambos nunca foi de igualdade ou amizade – como Crusoé tenta demonstrar – mas sim, a relação entre colonizador e colônia. E isso ecoa mesmo no último arco, quando o europeu reabilitado traja vestes nobres e o nativo, vestes subalternas. A separação entre eles não só se mantém, ela acentua. Sexta-feira não foi um amigo, mas sim um instrumento.

  Num raro momento de subversão, temos um diálogo cortante entre o nativo e o europeu, onde na ansia de catequizar o “selvagem”, Crusoé lhe apresenta o confronto entre Deus e o diabo. E em sua simplicidade, o homem questiona: “Se Deus é mais forte, porque não mata o diabo?” “Assim o mal não existiria”. Indagação que emudeceu o catequista, assim como emudeceria a própria igreja diante da barbárie por ela conduzida.

  Como resultado desta análise, podemos concluir que tanto a obra de Buñuel, quanto o livro de Daniel Defoe são produtos de seu tempo. Um por convicção outro por coação provavelmente? Sim! Financiadores estadunidense, podem ter tido demandas estadunidenses. Mas o que não deixa de dialogar com o presente, ao nos fornecer um espelho de práticas do passado que se mantém de pé até hoje.


Crítica | As Aventuras de Robinson Crusoé (1954) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro



 
 

Deixe seu e-mail para acompanhar as novidades!

© 2022 Perfil Cinéfilo: curso de cinema, crítica cinematográfica, curso de história do cinema

  • Instagram
  • Lattes
bottom of page