Crítica | A Mais Bela (1944)
- 13 de dez. de 2025
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O cinema a serviço da morte
A Mais Bela é certamente um intruso na filmografia de Akira Kurosawa. Não só por ser o pior filme feito pelo cineasta - ou ao menos dos que o Ocidente teve acesso, pois há outras duas obras desse cunho, uma perdida, outra recolhida pela ocupação estadunidense - como também por de fato, não ser um filme do diretor e sim, do Ministério da Guerra do Império Japonês, que financiou, vigiou e manteve o controle artístico sobre a obra, no período de sua intervenção na Toho e em toda a indústria cinematográfica. De forma que o que temos aqui é uma farsa panfletária, chauvinista e de ufanismo piegas.

Um filme propaganda que poderia facilmente ter a assinatura de Alan Smithee na direção - pseudônimo utilizado pelos cineastas estadunidenses quando desejavam destruir um filme a qual não obtiveram liberdade criativa - ou mesmo pelo Premier Hideki Tojo, já que o conteúdo de péssimo gosto, tem de fato a assinatura de seu ministério - na época acumulado com o cargo de Primeiro Ministro - num reflexo dos efeitos da censura e da propaganda sobre a obra final de um artista.
O filme, narra a história de uma fábrica, onde a produção precisa ser dobrada devido ao esforço de guerra - típica propaganda que justifica a exploração do trabalho - porém, com as mulheres tendo de entregar metade da cota dos homens. Numa demonstração pra lá de piegas de "honra", as mulheres levantaram uma espécie de Motim, para AUMENTAR sua demanda - um gesto sacrificial que comunicava diretamente com as trabalhadoras japonesas do período - esse espetáculo de falta de lógica e exploração voluntária, rende momentos aos quais o próprio Kurosawa certamente preferia esquecer.
O filme conta com diversos momentos constrangedores, que vão desde as citações nas paredes - aqui é um campo de batalha, honre os mortos da guerra - canções nacionalistas que evocam o sentimento de honra e patriotismo, um dramalhão vexatório em torno das metas de produção da fábrica e até mesmo a repulsiva referencia ao trabalho infantil - comum no absurdo contexto histórico, que utilizava até mesmo mão de obra escrava de coreanos, soviéticos e chineses presos - com as crianças perfiladas em posição de sentido, ouvindo o discurso do gerente da fábrica. Aliás, sobre a mão de obra escrava, o filme deliberadamente a esconde, assim como o Império o fez ao longo de sua construção histórica - se os olhos não veem, o coração não sente. Uma lógica perversa que mantém a exploração oculta, mas ao mesmo tempo operante.

Gerente esse, que é interpretado pelo grande Takashi Shimura, que felizmente tem um papel irrisório e de pouca minutagem. Pois aqui, nem ele seria capaz de salvar o conteúdo. Aliás, nem mesmo o primoroso formalismo, característico de Akira, foi capaz de render sobrevida ao filme. Embora haja momentos cinematograficamente belos, como o uso de reaction montage - sequência de close-ups rápidos - para um momento de festejo das meninas da fábrica, a sobreposição de planos - como na cena das lentes, onde a protagonista, enxerga um avião britânico no microscópio - e nos enquadramentos gerais, que referenciam a obra de Kurosawa. Nada porém, que seja capaz de salvar o conteúdo, embora haja uma corajosa tentativa - pelo menos dentro da minha análise - de mostrar o lado b da idealização política, quando as meninas estão extenuadas pelo trabalho massante e começam a aflorar os ânimos e brigar entre si. Porém, prontamente a crítica é sobreposta com mais propaganda piegas e encorajamento à honra do sacrifício.
Um trabalho descartável na trajetória filmográfica do diretor, que comunica mais sobre a realidade dos regimes fascistas e sua relação com a arte, do que propriamente traz algo de relevante ao cinema japonês.
Crítica | A Mais Bela (1944) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro


