Crítica | Madadayo (1993)
- 8 de jul. de 2025
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O legado eterno de um corpo finito
Em Madadayo de 1993, o já idoso e debilitado Akira Kurosawa, no alto de seus 83 anos, utiliza-se das metáforas em torno de seu protagonista para prestar tributo a si mesmo e ao mesmo tempo, reverenciar aqueles que mantiveram seu legado de pé em momentos turbulentos de sua trajetória. Sejam discípulos diretos, como Takashi Koizumi, seu assistente por 28 anos, indiretos, como os cineastas que viram nele um Mestre a seguir, como George Lucas e Steven Spielberg, ou nas nações que o acolheram quando seu próprio país lhe rejeitou, como a União Soviética, que através da Mosfilm ressuscitou não só o cineasta, mas também o homem que desistira de viver e, é claro, a todos aqueles que admiraram e compreenderam sua obra em vida e que até hoje, em morte, mantém vivo seu legado.

Inspirado no ritual budista do Ma-ah-da-kai - que basicamente significa "você está pronto?" - Kurosawa constrói seu próprio réquiem e ornamenta a pedra tornada sua lápide. Um filme lúcido e maduro de um cineasta que viveu tudo que a arte lhe reserva. E que nesse, que é o seu epitáfio, responde a pergunta anterior a plenos pulmões: MADADAYO - ainda não - e essa sede de desfrutar um pouco mais da vida, rendeu uma obra atemporal, que dialoga com o Japão e o cinema de diversas eras.
Seguindo a jornada do Professor Hyakken Uchida, interpretado pelo majestoso Tatsuo Matsumura, somos apresentados a um Mestre em sua lição derradeira, que conclui o seu ofício após trinta anos e se dedica a literatura. Um prólogo emocionante, onde em sua despedida, seus alunos prestam homenagem com uma canção tradicional de honra ao Mestre. Mas o que em tese poderia representar a ruptura definitiva do Professor com seus alunos, torna-se uma linda jornada de devoção dos pupilos para com o Sensei. Acompanhando sua jornada pelos momentos mais caóticos e também eufóricos de sua jornada, como uma presença constante de acalento, esperança e acima de tudo: gratidão.
O filme dialoga com períodos nebulosos da história do Japão, como o período da Guerra, onde o professor, vê-se como vítima direta ao ter sua casa bombardeada. Forçado a viver em um cubículo com sua esposa, interpretada pela grande Kyoko Kagawa, ele recebe dos seus alunos, não só o subsídio material que lhe permite enfrentar a tempestade, mas também a força necessária para se reerguer.
A abordagem histórica passeia também pelo pós-guerra, marcado pelo controle e a vigilância constante da nação ocupante, no caso, os Estados Unidos. E é nesse cenário que o primeiro Ma-ah-da-kai acontece. Uma celebração da vida, um "Memento mori" capturado de maneira brilhante pelas lentes de Kurosawa: de um funeral simulado em um plano aberto que se fecha, invertendo para o médio do próprio professor, para em seguida, um enquadramento aberto inicial, com inversão ritmada, criando no ritual, uma coreografia única, onde a dança ritualística de celebração da vida afasta até mesmo a ira do censor - exemplificado pelos policiais da ocupação - em cores vibrantes a resposta para o Ma-ah-da-kai obviamente seria Madadayo.

Reestabelecido após o trauma da Guerra e da Ocupação - que dialogam diretamente com a dor do próprio diretor nesses períodos - há na casa construída por seus alunos e no gato Nora, novos personagens, que dialogam diretamente com seu novo apego a vida. É um diálogo do próprio diretor com sua história. Onde a reconstrução é parte de um todo após a guerra, mas a tempestade se avizinha e ainda lhe renderá percalços significativos.
O desaparecimento de Nora - exemplificado na cena onde o próprio gato em plano aberto em meio as ruínas foge da chuva - dialoga com o próprio abandono sofrido por ele em meio a tempestade que fora o Japão do "Milagre Econômico". Ali, seu cinema formalista e tradicionalista, incorpora a crítica político social - com filmes que denunciam a corrupção e as mentiras, como O Homem mau dorme bem e Dodeskaden - o afasta de Estúdios como a Toho, o coloca na mira da hipocrisia corporativa e nas mãos da crítica pelega, o mantendo em um limbo para com aqueles que surgiam no cenário artístico em seu país e distante do seu microcosmo consolidado. De forma que a dor do Professor, que perdera a vontade de viver após o sumiço de Nora, era o mesmo sentimento do próprio diretor ao de fato, perder sua identidade, prestígio e controle criativo.
Entre o desaparecimento de Nora e o retorno do professor, há o fato novo, que é a chegada de Kutz, um gato que aparece em seu quintal e traz consigo a vontade de viver do velho professor. Uma representação de seu retorno, após a tentativa de suicídio em 1971, com o filme Dersu Uzala, produzido pela Mosfilm da União Soviética em 1975, devolvendo a Akira, a alegria de viver e criar.
E é aqui que o filme rende um dos monólogos mais belos e tocantes de toda a obra de Kurosawa, que é destinado para todos aqueles que participaram de seu ressurgimento das cinzas e que agora, presenciavam esse digno capítulo final: a parábola do Coelho e o Senhor da Colheita. Onde um Coelho debilitado é auxiliado pelo Senhor de uma grande plantação que o ajuda a recuperar as forças e indica os caminhos para o pequeno animal. Ali, o Professor atribui a ele o papel do frágil roedor e aos alunos e a todos que o ajudaram durante o desaparecimento de Nora, o papel de Senhor da Colheita, que de forma direta ou indireta, são os responsáveis por sua retomada. É um recado do Mestre aos pupilos e também ao espectador, um agradecimento singelo por manter-se ao seu lado mesmo quando tudo parecia perdido. Impossível não se emocionar.
Chegando ao epílogo do longa, nos deparamos com o Professor já mais idoso em seu 17° Ma-ah-da-kai. Aqui a homenagem reflete o peso de seu legado. Não são só os seus alunos que estão ali, são seus filhos e netos. É o impacto de seus ensinamentos em gerações muito além daquela a quem ele se dirigiu. É o recado do cineasta a nós que não tivemos a honra de apreciar essa grandiosidade em seu tempo, mas que perpetuamos seu legado através daqueles que vieram antes de nós. São os jovens cineastas, que carregam em seu exemplo, a construção de um cinema que carregue a mensagem do Mestre como uma semente de beleza pelo vento.
Sua resposta final segue sendo Madadayo, afinal, embora ele estivesse pronto para migrar deste plano - seu frágil e cansado corpo talvez pedisse por isso - nós jamais estivemos prontos para deixá-lo partir de nossos corações, nós e aqueles que enxergam na arte, um caminho para a construção do futuro. A imortalidade aqui, reside no legado deixado pela própria finitude da matéria.
Crítica | Madadayo (1993) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro


