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Crítica | O Leão de Sete Cabeças (1970)

  • 3 de abr. de 2025
  • 3 min de leitura

De zumbi a Che, a Revolução de Glauber chega à África


De terras africanas, surge a mais importante obra de Glauber Rocha nos tempos de exílio. Seguindo pela linha político alegórica que o marcara em Terra em transe, Glauber traz a perspectiva do colonialismo e de toda a celeuma provocada pela intervenção assassina do homem branco no continente Africano.

Crítica | O Leão de Sete Cabeças (1970)

O filme, baseado no livro das Revelações, o Apocalipse de São João, trata de maneira escatológica e parabolística os problemas trazidos pelo Imperialismo no continente e a luta de seu povo por liberdade em seu próprio solo.

No longa temos Marlene, interpretada por Rada Rassimov, que representa a Necro-política colonialista, a "Dona da África", sua intensa ligação com os colonizadores estrangeiros, o português, representando o comércio, interpretado brilhantemente por Hugo Carvana, o Agente Americano, interpretado por Gabrielle Tinti, que representa a C.I.A. e sua interferência na política interna das nações do terceiro mundo e por fim o Governador alemão, interpretado por Reinhard Kolldehoff, que representa a força militar, a violência e o saudosismo dos horrores nazistas.

Essa Trindade maldita composta por Inteligência, capital e militarismo, é responsável por conduzir uma colônia africana á verdadeira barbárie, relegando o povo á fome e ao sofrimento. O papel da C.I.A. nas convulsões políticas latino-americanas não foi esquecido por Glauber, e em um absurdo diálogo, o Agente Americano lamenta a dificuldade de se conseguir manter regimes na África, recordando que na América do Sul, foi apenas chegar a um General, dizer que não gostava do Regime, e no dia seguinte havia um novo modelo político, lindo e maravilhoso. Uma crítica nada velada às operações estadunidenses na Região, como a Brother Sam, que instaurou no Brasil de Glauber, o Regime Militar após o Golpe de 1964, financiado pela dita "maior democracia do Mundo".

Crítica | O Leão de Sete Cabeças (1970)

Agora seguindo na trama africana, temos também a forte presença da igreja, representada por Jean-Pierre Leáud, mítico astro da Nouvelle Vague, que elucida a falsa isenção e hipocrisia da Igreja Romana, ante os horrores causados pelo Imperialismo. Ele é capaz de reconhecer a Besta na figura de Marlene, mas age contra o Revolucionário que está disposto a detê-la e com ela se deleita em seu pecado.

Aliás, quando o assunto são os Revolucionários, Glauber evoca dois espíritos da luta pela liberdade: em um primeiro plano, temos o Espírito de Zumbi dos Palmares, na forma do líder da resistência africana interpretado pelo ator congolês Baiack, que conduz seu povo ao embate armado contra as forças colonizadoras e Ernesto Che Guevara, que havia sido assassinado há dois anos, na pele de Pablo, interpretado por Giulio Brogi, o espírito de luta universal que dialoga com a própria história das revoluções na África.

Crítica | O Leão de Sete Cabeças (1970)

O caminho da Revolução pavimentado por ambos encontra obstáculos na própria população, que através de líderes locais, decide apelar para o "bom senso" em detrimento da luta armada e decidem que o melhor caminho é a democracia burguesa. E a mesma se manifesta na forma de um rico e corrupto líder, que se alia ás forças opressoras para manter a nação escrava dos interesses estrangeiros. O ouro, os diamantes e todas as demais riquezas africanas, seguem fazendo girar a economia das nações que as exploram.

Dentro dessa proposta cinematográfica por parábolas, os símbolos desempenham um papel muito importante: temos a lança de guerreiro Africano, que representa o poder de líder da nação, temos o osso que tal como em 2001, de Kubrick, representa a violência primitiva, o banquete humano, representando o horror e a Morte trazidos pelo colonialismo, que se farta em sua vasta opulência, o Candomblé, que como em um místico ritual, traz de volta os fantasmas da luta entre classes, o martelo do julgamento da Igreja, nunca endereçado aos verdadeiros culpados, as vestes sujas e surradas do sacerdote, representando as maculas e pecados da instituição religiosa mais poderosa da terra, no Dr. Xobu, o líder da Burguesia africana, exposto em sua tentativa de embranquecimento, vestido alá George Washington e até mesmo no cabalístico número Sete, que dá título ao filme mais apocalíptico da carreira de Glauber.

O Leão de Sete cabeças por definição do próprio Glauber Rocha é "um discurso afro-hispânico sobre as mitologias formadoras da nossa nacionalidade". Uma obra transcendente, que aponta os algozes, ressuscita os heróis e nos instiga a lutar por liberdade.


Crítica | O Leão de Sete Cabeças (1970) - por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro

 
 

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