Qual é a linguagem do cinema (a linguagem cinematográfica)?
- Douglas Moutinho
- 29 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Quando Alfred Hitchcock escolhia os roteiros para futuras filmagens, ele analisava basicamente um aspecto da narrativa: seria essa história verdadeiramente cinematográfica? Duas perguntas emergem desse questionamento: 1) a que Hitchcock, um dos maiores cineastas de todos os tempos, se referia ao falar em “cinematográfico”?; 2) como poderia o grande Hitchcock não ter desenvolvido ele mesmo os roteiros de seus filmes mais emblemáticos?
Desde a Epopeia de Gilgamesh, registrada há cerca de quatro mil anos, o ser humano tende a associar histórias à arte da escrita. Mesmo no teatro e nas narrativas de tradição oral como a Ilíada ou Édipo Rei , essas histórias foram assimiladas textualmente e são compreendidas dessa forma atualmente. O mesmo, porém, não ocorre com os roteiros cinematográficos, que constituem meramente uma base para a criação final: o filme.O cinema é audiovisual, e não simplesmente “literário-visual”. Ele deve ser compreendido como uma forma de comunicação pautada na integração e manipulação do som e da imagem, que, por vezes, pode ter uma história como fio condutor. Assim, o cinema, como toda arte, possui uma linguagem própria. Mas qual é o cerne dessa linguagem? Teóricos formalistas de inspiração kantiana, como Arnheim e Münsterberg, defendiam que a matéria-prima do cinema é a mente humana, que reorganiza ativamente a experiência apresentada na tela espaço, tempo e causalidade afirmando que o filme não é mera cópia do mundo, mas sim um produto da atividade psíquica do espectador.

Podemos então questionar: o cinema depende de um enredo? A resposta é: não. O enredo é apenas um dos elementos possíveis de um filme. A história, o diálogo, a ação e até os personagens são meros instrumentos à disposição da composição cinematográfica, e não elementos essenciais para a produção.
É certo que, no cinema mainstream, especialmente o hollywoodiano, o experimentalismo e o uso mais ousado da linguagem cinematográfica são cada vez mais raros. Ainda assim, convido o leitor a contemplar obras de caráter ensaístico, como O Homem com a Câmera, de Dziga Vertov, Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos, de Marcelo Masagão, Je Vous Salue, Sarajevo, de Godard, ou Rhythmus 21, de Hans Richter. Nesses filmes, embora não haja narrativa tradicional, atuação ou personagens nomeados, existe estrutura, imagens e som. Em outras palavras, há uma gramática interna, desenvolvida com um propósito específico: estabelecer uma comunicação própria, a linguagem do cinema.
Diante disso, podemos retomar o que Hitchcock queria dizer ao afirmar que só se interessava por roteiros cinematográficos. Para ele, o cinema jamais poderia depender do diálogo para desenvolver a história. Em vez disso, ele imaginava como gravar o enredo usando a própria linguagem do cinema e não a língua falada. Decupava o futuro filme em planos, enquadramentos, transições e montagem, pensando também em nuances de atuação, atmosfera, composição e ritmo. A qualidade do enredo era secundária. Essa preocupação pertence à esfera dos cineastas medíocres, não à dos grandes mestres do cinema.
Dessa forma, talvez o maior nome da história do cinema norte-americano embora seja inglês, desenvolveu grande parte da sua filmografia dentro do contexto de produção industrial estadunidense , não roteirizou nenhuma de suas grandes obras. Filmes como Um Corpo que Cai, Psicose, Janela Indiscreta, Disque M para Matar, Trama Macabra, Os Pássaros, Interlúdio, A Sombra de uma Dúvida e Intriga Internacional não tiveram sua participação no roteiro, e, ainda assim, são unanimemente reconhecidos como obras de autoria hitchcockiana. Isso se deve ao fato de que o cinema é “escrito com a câmera, não com a pena”. Como definiu Alexandre Astruc, o diretor deve usar a câmera como o escritor usa a caneta, explorando os artifícios próprios da linguagem cinematográfica. Assim nasce o conceito de caméra-stylo.
Mas qual é, afinal, a linguagem do cinema e como ele se comunica com o espectador? Através da imagem e do som. Quando o cineasta opta por um enquadramento fechado em vez de aberto, quando decide o que mostrar e o que omitir, quando valoriza a iluminação ou destaca elementos específicos, quando escolhe o silêncio em vez da fala ou da música, quando utiliza planos-detalhe ou movimenta a câmera ao invés de cortes secos, quando conecta elementos aparentemente desconexos por meio da montagem, quando guia o elenco em nuances de atuação sem recorrer ao diálogo, quando sugere ao invés de revelar, quando manipula cores ou paletas irreais, quando evita o melodrama em favor de uma honestidade intelectual, ou ainda quando equilibra ficção e realidade de forma quase indistinta tudo isso constitui a linguagem cinematográfica.
Portanto, convido o leitor a enxergar o cinema além da história. Um filme não é bom ou ruim simplesmente pela sua narrativa; ele é bom pela inovação, pela coerência de sua gramática interna, pela mise-en-scène, pela unidade estilística. Considerar o cinema apenas como história é reduzir a uma superficialidade uma arte complexa e maravilhosa. O filme é a união entre forma e conteúdo, mas enquanto o conteúdo é opcional, a forma é obrigatória.
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Qual é a linguagem do cinema (a linguagem cinematográfica)? | por: Douglas Esteves Moutinho @perfil.cinefilo




