Lista | 10 filmes para entender o cinema de Dziga Vertov e o conceito de cine-olho
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Dziga Vertov foi um cineasta vanguardista da União Soviética, no contexto Rússia pós-revolução socialista, que desenvolveu um estilo próprio de fazer cinema: o cine-olho, ou câmera olho. Neste estilo, ele rejeita a encenação e a manipulação das emoções através da montagem - como defendido por cineasta russos contemporâneos como Sergei Einsenstein e Yakov Protazanov - e se propunha a fazer o que o mesmo considerava: um Cinema de Verdade, sem encenações ou reforço emocional através da montagem, tendo na câmera, a extensão amplificada do olho humano.
Através de seu trabalho de filmar os anos imediatamente seguintes à Revolução Bolchevique e por sua proposta de expor eventos, muitas vezes em sua crueza, o fizeram o cineasta preferido de Vladimir Ilych Ulianov "Lenin" o cérebro por trás da queda do Czar - o primeiro e mais importante líder Soviético - cujas imagens que temos até os dias de hoje, devemos em sua maioria, às lentes de Vertov.
Vertov acreditava que o cinema era um grande aliado na educação das massas após a Revolução e para isso, dedicou sua vida a ser o maior documentarista do Processo de consolidação e crescimento da URSS. Fugindo do que considerava uma influência burguesa, sua montagem através da realidade, buscava apontar sua câmera para a Rússia de verdade, fazendo disso, seu manifesto político e contribuição à causa.
Infelizmente todo esse caminho pelos fatos que compunham a nova realidade de seu país foram abruptamente mudados para Vertov quando morreu Lenin. Ali, o desalento pela perda do líder - magnificamente filmado através de suas lentes - foi se transformando aos poucos em ostracismo e abandono. Distante da lógica idealizada do Realismo Soviético, seu cinema foi considerado formalista em demasia e seus projetos passaram a ser rejeitados e não financiados. Fato que o lançou em uma intensa depressão, que o mesmo descreveria em seus diários como a grande causa do câncer que ceifou sua vida em Fevereiro de 1954.
Abaixo fiz uma lista em ordem cronológica com dez filmes para compreender o cinema de Dziga Vertov e sua câmera-olho:
1 - Godovshchina Revolyutsii (O Aniversário da Revolução) -1918

É o primeiro longa-metragem dirigido por Dziga Vertov, que antes disso havia conduzido a série Cinejornal Kinonedelja - perdido quase em sua totalidade - como uma espécie de noticiário semanal pós revolução.
Seu primeiro longa é menos ousado esteticamente falando e ainda dá poucos sinais de suas experimentações vindouras. Aqui, há o reforço da estática e a abordagem documental, a utilização de panorâmicas e a apresentação formal dos personagens do Pós-revolução.
O filme se digna a cobrir os eventos posteriores à derrubada do czar, com foco na disputa interna que eclodiria em uma Guerra Civil - o embate entre mencheviques e bolcheviques - onde Vertov apoia-se na abordagem dialética para estruturar os antecedentes do conflito, suas razões e os envolvidos, antes de propriamente mergulhar no caos instaurado no país.
É importante entender que aqui Vertov já faz uso de sua câmera-olho como manifesto político. Ele não apenas retrata eventos. Ele toma partido dos mesmos - nesse caso dos bolcheviques - manifestando a relação antagônica de Kerensky, líder menchevique, um representante da burguesia e do capital, em contrapartida com Lenin, aliado da classe operária e do campesinato.
Sua abordagem porém não abre espaço para a abordagem idealizada ou simulada. Ele leva suas lentes ao cerne da dor da população civil, filma a morte de maneira visceral - como no reforço dramático do corpo carbonizado - e não limita o confronto às lideranças partidárias.
É um registro importante de um cineasta em formação e de um revolucionário convicto que ainda experimentava até chegar a sua melhor versão, além de um artefato histórico de valor inestimável.
2 - Kino Pravda 1 - 23 (1922-1925)

A longeva série Cinejornal de Vertov teve sua inspiração no jornal russo impresso, o Pravda. Aqui Dziga de fato desenvolve sua arte e seu manifesto, de forma que a construção de sua identidade cinematográfica pode ser acompanhada no caminhar dos 23 volumes da sequência - o nº 12 infelizmente se encontra perdido - onde além de produzir um Cinema de Verdade - no que diz respeito a tradução em imagens dos fatos - ele ousa e experimenta diferentes maneiras de trazer essa verdade.
O que era um propósito simples, de trazer a luz fatos e conquistas da Rússia no contexto revolucionário, torna-se um laboratório de experimentações cinematográficas onde Vertov reforça sua mensagem política através de inovações técnicas. Aqui ele começa a utilizar a justaposição para comunicar politicamente, sobrepondo imagens para comunicar verdades ocultas. O uso do plano detalhe, que seria uma marca registrada de sua cinematografia, em especial o foco nos olhos, a extensão do corpo humano, ampliado pelas lentes do diretor. O uso do stop motion como ferramenta narrativa torna-se pertinente, tal como a animação quadro a quadro. Além dos intertítulos manifestos, que trazem a mensagem política e questões de ordem entre os enquadramentos. Enquadramentos aliás, que Vertov ousou em sua jornada pelo Cinejornal, testando novas composições e construindo sua identidade como cineasta.
Em meio a sua construção, Kino Pravda pavimenta o caminho do desenvolvimento do próprio país, para no fim, comemorar sua própria obsolescência com a chegada do rádio e a comunicação sem fronteiras físicas ou intermediários. Kino Pravda é o registro de construção de um cineasta tanto quanto de uma ideia.
3 - Sovetskie Igrushki (Brinquedos Soviéticos) - 1924

Um marco para o cinema soviético por se tratar da fusão entre animação e mensagem revolucionária. Aqui Vertov, juntamente com o animador Ivan Belyaev desenvolvem sua mensagem política através de uma animação que mescla a técnica quadro a quadro com desenhos em papel, com o cutout - técnica de recortes articulados - para exemplificar a exploração burguesa, a cumplicidade da religião e o sofrimento proletário no sistema capitalista.
Vertov utiliza-se de vinhetas circulares e close-ups para reforçar expressões em suas figuras, de forma que a utilização de alegorias para determinar a força predatória do capital torna-se ao mesmo tempo eficaz e interessante.
O filme é um registro eloquente da utilização da animação como extensão do cine-olho e um recurso que seria utilizado posteriormente em outros momentos de sua filmografia.
4 - Kinoglaz (Cine-olho) - 1924

Esse é o Manifesto definitivo de uma nova forma de enxergar cinema. Se em obras anteriores havia o ensaio do cine-olho, aqui é a estréia de fato, onde Vertov define os parâmetros e apresenta a câmera como extensão do olho humano, porém, particularmente mais eficaz para captar nuances escondidas, ângulos não percebidos e expor a verdade por trás do cotidiano.
Aqui seu caráter político salta substancialmente e ele passa a integrar um primor técnico soberbo à mensagem de educação das massas para a construção coletiva. Na abordagem do dia a dia, ele mostra cooperativas, trabalhadores e o futuro através dos jovens pioneiros e principalmente das crianças.
Inaugurando de fato sua concepção cinematográfica, que faria dele o representante máximo do Kinoks - coletivo de cineastas que defendiam o cinema de verdade, o estilo cine-olho - e também os olhos da União Soviética. A de Lenin e a pós-Lenin.
5 - Shestaya Chast Mira (A Sexta Parte do Mundo) - 1926

A importância desta obra, além do primor técnico que a põe quase em pé de igualdade com a obra máxima do cineasta - Um homem com uma câmera -, reside no fato de que a mesma explora com delicadeza e finesse o Extremo Oriente Soviético e dialoga através da montagem e da justaposição de imagens, com o contraste da exploração colonial imposta pelo capital versus a construção coletiva da sociedade soviética.
Aqui a mensagem anticolonial vai aos confins do mundo para expor o contraste entre a realidade das colônias na África e Ásia em relação às populações cazaque e uzbeque, por exemplo. A utilização da forma como recurso narrativo cria indignação e senso de urgência no expectador e age como catalisador revolucionário.
Um filme que não cai na armadilha da exotização de culturas diferentes dos padrões impostos pela sociedade ocidental e que preza pelo diálogo intercultural, destacando as valências e potencialidades dessas culturas.
6 - Odinnadtsatyy (O décimo primeiro) - 1928

No 11º Aniversário da Revolução Russa, Vertov leva sua câmera-olho para longe das celebrações e do espetáculo em marcha na Praça Vermelha para retratar o desenvolvimento industrial de seu país, tendo como foco a Ucrânia.
Aqui, ao invés de líderes do partido, suas lentes buscam o trabalhador braçal soviético, conferindo protagonismo a quem se fato constrói o poder popular. A enciclopédia do homem comum, que teve seu início em Kino Pravda, ganha aqui seu principal expoente em um registro fidedigno das mãos que fazem a revolução silenciosa e eficaz.
Com planos inovadores, a utilização da justaposição para reforço da mensagem política e a utilização da figura de Lenin, não como mero adereço de culto, mas como razão prática da jornada Revolucionária, fazem desse um dos registros mais relevantes do uso do cine-olho.
7 - Chelovek s Kino-apparatom (Um Homem com uma Câmera) - 1929

O auge da técnica e performance de Vertov e um dos filmes mais importantes da história do cinema. O filme acompanha um filmmaker - interpretado pelo irmão de Vertov, Mikhail Kauffman - que registra a vida urbana na União Soviética.
De montagem visceral e anárquica até certo ponto, Vertov abre mão dos intertítulos para expor o caos acelerado de um dia na cidade. Aqui ele chega o ápice de sua expressão, desenvolvimento de enquadramentos e utilização de recursos cinematográficos, como o Lendário Split Screem - telas divididas - e mesmo o stop motion.
A proposta de cobrir o frenesi urbano diário causou estranheza em críticos ocidentais da época, como no The New York Times, que considerou a obra ignorante e alucinada - ironicamente o tempo tratou de devolver tais adjetivos aos críticos.
Embora aparente ser filmado na mesma localidade, o filme foi rodado em Kiev, Moscou e Odessa, o que reforça o papel da montagem na construção do sentido fílmico e na ideia de continuidade.
8 - Tri Pesni o Lenine (Três Canções sobre Lenin) - 1934

Certamente o trabalho mais intimista e particularmente emocional de Vertov. Aqui, o cineasta não se contém a narrar eventos ou a evocar a figura do líder falecido em 1924, mas presta uma singela homenagem, carregada de emoção e poesia.
Filmado já próximo de seu ocaso cinematográfico, Três Canções para Lenin é um registro em três episódios que se digna a celebrar a construção da União Soviética, sua industrialização, a queda das amarras impostas pelo patriarcado religioso e a evocação de Lenin como símbolo da URSS, com seu legado ecoando nas gerações futuras.
Seu legado é evocado através de seu principal projeto: a eletrização do país e todas as conquistas populares subsequentes a isso. Novamente utilizando-se de seus recursos habituais, Vertov mostra não só um líder do passado, mas sim um símbolo apontado para o futuro.
9 - Kolybelnaya (Canção de ninar) - 1937

A importância deste longa reside além de sua inegável competência técnica, mas também pela ruptura que o mesmo representa. Aqui, Vertov e a nova face da Revolução, sob comando de Stalin, definitivamente iniciam um processo de litígio informal, onde o cineasta começaria a ser cada vez mais escanteado sob a alegação de formalismo e por estar distante do ideário do Realismo Soviético.
Embora nesta obra em si - encomendada para o 20º aniversário da Revolução Russa - Vertov se aproxime da dinâmica proposta pelo Realismo Soviético e deixe de lado o frenesi que o caracterizou em obras como Um Homem com uma Câmera, o cineasta colheria os frutos de suas experimentações anteriores, distantes da visão burocrática do Comissariado do Povo para a arte, que em 1934 adotou o Realismo Soviético como norte artístico.
O filme é um testemunho do papel da mulher no desenvolvimento da URSS e na manutenção do espírito revolucionário. Com forte culto a personalidade, tem Stalin como figura quase que central na concepção narrativa. Ele ainda ousa em diversos momentos, tais quando apresenta seu refino técnico através da justaposição, da inversão de planos e close-ups. Inclusive em uma imagem sobreposta que põe Lenin em destaque, em detrimento do próprio Stalin.
É um filme que não marca um divórcio de Vertov com seu país, mas que o faz caminhar na corda bamba do futuro anonimato.
10 - Tebe, front! (Para você, front!) - 1942

Um híbrido tardio de Dziga Vertov que une o documental cine-olho com a narrativa encenada em live-action para traduzir a experiência de um casal do Extremo Oriente Soviético - mais precisamente do Cazaquistão - durante a Segunda Guerra Mundial.
O filme, um média-metragem sonoro, apresenta os dois segmentos do campo de batalha: os que vão ao front e os que ficam para manter o esforço de guerra através da manutenção da força de trabalho.
Um filme que traz uma visão interessante sobre a guerra e que seria um prelúdio do desenvolvimento de Vertov nesse novo estilo, mas que fora interrompido abruptamente pelo ostracismo ao qual o diretor fora lançado.
Este que acabara por ser seu último filme de fato, é um registro melancólico de uma retirada sem despedida de um socialista convicto que infelizmente não teve seu devido respeito por parte da burocracia estatal.
Porém em seu legado reside a verdadeira resistência revolucionária, que inspiraria cineastas como Jean Rouch a apostar em um cinema direto onde o que se exibe é antes de tudo, aquilo que se vê.
Lista | 10 filmes para entender o cinema de Dziga Vertov e o conceito de cine-olho | por: Felipe "Dean Corso" Ribeiro