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Crítica | Coyote Vs ACME (2026) - É preciso imaginar o Coyote feliz

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

O Coyote e sua pedra


A aproximação entre o eterno perseguidor do Papa-Léguas e o Sísifo de Albert Camus é quase inevitável. Ambos estão condenados a repetir uma tarefa que jamais chega à sua conclusão: um empurra sua pedra até o alto da montanha apenas para vê-la cair; o outro elabora planos, encomenda produtos da ACME e prepara armadilhas que invariavelmente se voltam contra ele. Depois da queda, resta aos dois apenas retornar ao princípio. Coyote vs. ACME, contudo, encontra algo novo nessa velha perseguição ao perguntar o que aconteceria se o Coyote, pela primeira vez, tentasse interromper o ciclo.

A resposta assume a forma de um processo judicial. Depois de décadas esmagado, explodido, arremessado de penhascos e traído pelas engenhocas que comprava, o Coyote decide responsabilizar a ACME por seus produtos defeituosos. É uma premissa engenhosa porque transforma uma das convenções mais reconhecíveis dos Looney Tunes em questão jurídica sem destruir sua natureza cômica.

O filme continua sendo uma aventura interessada em divertir. Seu humor físico, a interação entre personagens animados e atores e a multiplicação de situações impossíveis permanecem no primeiro plano. A filosofia existe em sua subcamada, sem converter a comédia em uma exposição solene de conceitos.

Essa leveza não diminui a potência daquilo que o filme sugere. Ao contrário, o absurdo está inscrito na própria linguagem dos Looney Tunes. O Coyote vive em um universo no qual o efeito raramente corresponde à causa: pinta túneis que se tornam reais apenas para os outros, permanece suspenso no ar enquanto ignora a ausência do chão e sobrevive a violências que deveriam destruí-lo. Existe uma incompatibilidade permanente entre sua inteligência e o mundo. Ele calcula, projeta e organiza, mas a realidade não reconhece seus esforços. Quanto mais engenhoso é o plano, mais espetacular se torna o fracasso.

É justamente dessa ruptura entre a necessidade de ordem e a indiferença do mundo que nasce visualmente o absurdo camusiano. O absurdo não significa apenas que algo seja estranho ou ilógico. Ele surge do confronto entre o desejo de encontrar sentido e uma realidade que se recusa a oferecê-lo. Sob essa perspectiva, o Coyote constitui uma figura camusiana não simplesmente porque fracassa, mas porque jamais encontra no universo uma explicação proporcional para seu fracasso.

Crítica | Coyote Vs ACME (2026) - poster Bola de demolição pendurada por corrente com COYOTE IS ACME em branco e vermelho, contra céu claro.

O Projeto Sísifo e a exploração do absurdo


O Projeto Sísifo explicita o paralelo e amplia sua crueldade. A ACME descobre que os personagens animados podem sobreviver à violência de seus produtos e transforma essa condição em método de exploração. O sofrimento do Coyote deixa de ser apenas resultado do acaso para integrar uma estrutura corporativa que depende da repetição de suas quedas.

A empresa não criou essa lógica; apenas aprendeu a administrá-la, ocultá-la e convertê-la em mercadoria. Até mesmo a capacidade do indivíduo de se levantar depois de ser esmagado pode ser apropriada por uma instituição que vê sua resistência não como dignidade, mas como oportunidade para submetê-lo a uma nova queda. Essa leitura pode facilmente ser direcionada para um sentido de exploração social que, entretanto, não compete ao presente texto desenvolver.

Ao processar a ACME, o Coyote procura finalmente atribuir uma causa ao sofrimento. Se seus planos fracassaram porque os produtos eram defeituosos, então sua história talvez possa ser reorganizada: a dor ganharia um responsável, e a justiça seria capaz de restaurar a ordem. Entretanto, descobrir o culpado não resolve inteiramente seu dilema. A ACME pode explicar parte de suas quedas, mas não explica por que ele sempre retorna à perseguição. É nesse ponto que a questão jurídica se converte em uma questão existencial.

Crítica | Coyote Vs ACME (2026) - Coiote dos desenhos, assustado e caindo entre rochas em um cânion desértico alaranjado.

Interromper o ciclo e perder a identidade


O Coyote deseja interromper o ciclo, mas também depende dele para continuar sendo o Coyote. Sua identidade foi construída na distância que o separa do Papa-Léguas. Cada armadilha fracassada reafirma a impossibilidade de alcançar seu objetivo, mas também lhe oferece uma nova razão para acordar, planejar e tentar novamente. Se finalmente capturasse o Papa-Léguas, o triunfo poderia representar menos a realização de sua existência do que o esvaziamento dela. Sem a perseguição, quem restaria?

O filme compreende que Coyote e Papa-Léguas não são apenas adversários. São personagens mutuamente constituídos. Um só pode ser definido pela presença do outro, e a separação definitiva destruiria a relação que sustenta ambos. A pedra de Sísifo é seu castigo. Apesar disso, é também aquilo em torno do qual sua existência se organiza.

De modo semelhante, a perseguição aprisiona o Coyote, mas lhe fornece movimento, desejo e identidade. Ele não precisa considerar agradável cada explosão para encontrar alguma forma de afirmação no ato de levantar-se novamente.


Crítica | Coyote Vs ACME (2026) -  Coiote de desenho animado segura placa com WHY?, expressão confusa e frustrada, em ambiente interno.

Kevin diante do próprio fracasso


Kevin, o advogado que defende o Coyote, oferece a correspondência humana dessa condição. Ele passa a desejar fazer diferença, apesar de ter se habituado a causas pequenas e derrotas antecipadas. Seu ciclo é menos visível que o do Coyote, porém talvez mais reconhecível: o medo do fracasso leva-o a evitar qualquer ação capaz de conferir sentido àquilo que faz. Enquanto o Coyote tenta incessantemente e fracassa, Kevin fracassa porque teme verdadeiramente tentar.

A aproximação entre os dois permite que o filme apresente a revolta como resposta ao absurdo. Para Camus, revoltar-se não significa superar definitivamente uma condição sem saída nem descobrir uma explicação superior que justifique todo sofrimento. Significa reconhecer lucidamente essa condição e, ainda assim, recusar a passividade.

O processo contra a ACME não garante que o mundo se tornará racional, mas permite que Coyote e Kevin deixem de aceitar silenciosamente o lugar que lhes foi atribuído. A ação dos dois possui valor mesmo sem a promessa de uma vitória permanente.


Crítica | Coyote Vs ACME (2026) - coyote e kevin no julgamento

 

Dois mundos, duas leis


De forma análoga, o absurdo encontra espaço na própria ontologia do filme. Humanos e desenhos ocupam o mesmo mundo, embora estejam sujeitos a leis diferentes. Uma bigorna que mataria Kevin apenas achata temporariamente o Coyote; um corpo animado pode ser queimado, desmontado e recomposto, levando a violência ao limite sem que ela adquira caráter definitivo.

O longa não procura resolver essa incompatibilidade. Faz dela sua matéria cômica e, ao mesmo tempo, seu princípio filosófico. A convivência entre seres mortais e criaturas indestrutíveis torna visível a incoerência do mundo, no qual a dor pode ser simultaneamente concreta e reversível, terrível e engraçada.

É significativo que toda essa elaboração permaneça subordinada à diversão. Coyote vs. ACME não pretende adaptar O mito de Sísifo, tampouco exige que o espectador reconheça Camus para participar de suas piadas. O filme funciona como comédia familiar, aventura de tribunal e celebração dos Looney Tunes. Sua dimensão filosófica nasce da confiança nas características dos personagens, e não da imposição de uma gravidade exterior a eles. O Coyote já era absurdo muito antes de o roteiro nomear seu Sísifo.

A simplicidade do núcleo humano e algumas soluções narrativas previsíveis impedem que todas essas possibilidades sejam desenvolvidas com a mesma profundidade. Kevin percorre um arco conhecido de recuperação da coragem, enquanto a crítica à corporação assume contornos suficientemente claros para não perturbar a agilidade da aventura. Ainda assim, essas limitações pertencem também à escolha consciente de preservar a acessibilidade e o ritmo. O filme prefere sugerir suas questões enquanto uma nova armadilha é preparada.


Crítica | Coyote Vs ACME (2026) -  Wile E. Coyote, da ACME, cavalga um míssil no céu com expressão assustada e empolgada.


É preciso imaginar o Coyote feliz


No fim, a grande vitória do Coyote talvez não seja alcançar o Papa-Léguas, derrotar a ACME ou escapar para sempre de sua pedra. Sua vitória está em compreender que a repetição à qual foi submetido não precisa pertencer àqueles que lucraram com ela. Ele pode retomá-la como escolha, transformando a condenação em revolta e o fracasso em movimento. A perseguição continua, mas já não possui exatamente o mesmo significado.

A pedra voltará a cair. O Papa-Léguas continuará alguns metros à frente. Uma encomenda da ACME provavelmente produzirá outra explosão. E o Coyote, chamuscado no fundo de uma cratera, tornará a abrir os olhos. Não porque a vitória esteja finalmente garantida, mas porque levantar-se é a maneira que encontrou de afirmar sua existência diante de um mundo que jamais lhe oferecerá respostas.

É preciso, portanto, imaginar o Coyote feliz.

 


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